Hercílio Maciel
Quando
fui dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações de Pernambuco, SINTTEL-PE era permanente a luta contra os picaretas que ingressavam
no negócio através da terceirização da mão de obra de rede, e que começou ainda na Telpe, única empresa de telefonia no Estado à época.
Havia
exceções, é verdade, logo destruídas pela privatização da
Telebras, patrocinada pelo governo FHC. O mais frequente era a presença dos
picaretas que, travestidos de empresários, ingressavam no negócio
para ganhar dinheiro às custas da redução de salários e
benefícios dos trabalhadores e da contumaz sonegação de direitos.
FGTS, Previdência, Férias e verbas rescisórias, eram os mais
comuns, mas não ficava imune até o pagamento dos salários.
A
ação era cuidadosamente planejada para lesar os trabalhadores e
beneficiar o tomador do serviço e o picareta contratado. Assim, as empresas terceirizadas,
quando muito, tinham como sede uma sala alugada e algum mobiliário,
também alugado. Tudo muito provisório. Agregavam o carro dos
próprios trabalhadores, junto com as ferramentas. Normalmente nenhum
investimento. Quando chegava o momento do golpe fatal, os donos ou
prepostos sumiam, sem deixar rastro.
Sem
o salário do final do mês, a alternativa era recorrer à Justiça
do Trabalho e pressionar a empresa contratante como parte ativa na ação trabalhista, para pagar os salários
e demais obrigações. Esta, visando diminuir seus alegados prejuízos, iniciava um processo de pressionar individualmente os trabalhadores lesados, para fazer um “acordo”, e assim preservar o emprego. Esse acordo sempre vinha com a dispensa de
verbas rescisórias, férias, e tais. Nessas circunstâncias adversas, era comum os trabalhadores, aceitarem o acordo para tentar continuar trabalhando na
nova “gata” como são chamados esses empresários, a ser contratada, o Sindicato
nada podendo fazer.
Com
as resoluções do TSE sobre trabalho na atividade fim a opção dos
sindicatos passou a atacar o problema no seu fundamento, nas
cortes superiores, em relação ao trabalho terceirizado. A posição
dessas cortes impunham restrições a essa modalidade de contratação,
cerceando, pelo menos para uma parte relevante dos trabalhadores, a
superexploração por parte da picaretagem.
Agora,
o presidente da Câmara, Eduardo Cunha e a imensa maioria dos
parlamentares eleitos pelos trabalhadores, e que votaram no
famigerado PL 4330, entregaram o lombo daqueles que os elegeu para
que a picaretagem possa deitar e rolar.
O
risco de generalizar essa prática é muito grande, porque as
empresas estão sempre em busca de reduzir custos e ganhar mercados
ou licitações. Assim que as primeiras empresas começarem a ter sucesso com essa prática as
outras se verão forçadas a seguir o mesmo caminho. A lei deve existir para proteger os mais fracos. A CLT cumpre esse papel. Agora, caso esse PL se torne lei, a parte mais fraca, os trabalhadores, estarão expostos a sanha de empresas sem escrúpulos, que se valerão de empresários picaretas, os novos capitães do mato, para aumentar seus lucros.
As
pessoas que votaram para deputado sem a devida atenção, muitas já
nem se lembram em quem votou, vai ter a oportunidade de sentir as
consequências do seu voto. E, para os que acham que todos são
iguais, lembre-se, 123 parlamentares disseram não ao PL 4330. Eles
podem não aparecer na TV por isso, mas não tiveram dúvidas ao
ficar ao lado do eleitor contra essa iniquidade que está em curso.
Na luta para barrar essa sandice, a CUT está chamando uma
paralisação geral para a próxima quarta-feira, 15 de abril.
O
que está em jogo são os empregos dignos contra um regime de
superexploração, praticado por uma corja de picaretas ávido para
lucrar, roubando parte dos seus salários.

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