terça-feira, 14 de junho de 2016

Emoção e mente, tudo num só corpo, o SER


Descartes, um dos grandes nomes da filosofia, ensinou que mente e corpo seriam entes distintos, condicionando o existir ao pensar.
Sempre me perguntava, se o existir está vinculado ao pensar, e este pensar é racionalidade, um campo lógico definido, então o que impulsiona cada povo a responder de forma distinta a problemas iguais que vivencia?
Nunca aceitei a ideia de qua havia seres superiores ou seres inferiores. Mas seres diferentes. E os que os fazia diferentes? O meio ambiente? Sua formação cultural?
Desde os tempos do movimento sindical observava como os diversos segmentos de trabalhadores, distribuídos por diferentes empresas, respondiam de forma diferenciada ao mesmo trabalho do Sindicato. Quando muitas vezes queríamos desenvolver uma atividade que fosse igual para todos, sempre havia aqueles dirigentes que ponderavam as diferentes respostas em função da empresa e mesmo do local onde os trabalhadores atuavam. E sempre, na maioria das vezes, o que fazia a categoria se mobilizar era muitos mais os fatores emocionais do que as explicações mais razoáveis que pudéssemos oferecer.

Por essa andanças da vida me deparei com um livro que mudaria minha forma de pensar: O Erro de Descartes, escrito por Antônio Damásio, a época chefe do Departamento de Neurologia da Universidade de IOWA, (EUA) além de professor adjunto em outras universidades, publicado em 1994.

Partindo de casos reais ocorridos nos EUA desde 1848, cujos registros teve acesso, pode verificar que indivíduos que tiveram distintas partes do cérebro danificada por algum motivo, tiveram consequências igualmente distintas em suas vidas. Mais especificamente era muito menor a sobrevivência de indivíduos cuja região do cérebro responsável pelas emoções tivesse sido mutilada.  Começava então um maravilhoso passeio através do funcionamento desse fantástico órgão do ser humano, cujo teor não ouso abordar por seu grau de complexidade vis a vis minha modesta compreensão embora a abordagem seja leve.
O autor conclui, contestando a afirmação do filósofo francês, não mais pelo viés das figuras da escolástica ou sutilezas metafísicas, mas a partir do seu conhecimento de neurologia.

Ao trazer a análise da nossa razão para dentro do ser humano, localizando-a como desdobramento das nossas emoções, Damásio nos coloca diante de outras perspectivas para nosso ser. Entre suas observações, de caráter mais geral, transcrevo abaixo algumas que julguei mais significativas.

"Conhecer a relevância das emoções nos processos de raciocínio não significa que a razão seja menos importante do que as emoções e deva ser relegada ao segundo plano ou deva ser menos cultivada. Pelo contrário, ao verificarmos a função alargada das emoções é preciso realçar seus efeitos positivos e reduzir seu potencial negativo. "


" O que me preocupa é a aceitação da importância das emoções sem nenhum esforço para compreender sua complexa maquinária biológica e sociocultural." (grifo nosso)

Apresentando uma análise prática dos desdobramentos reais na formação da sociedade, completa:

 "...a função atribuída às emoções na criação da racionalidade tem implicações em algumas das questões com que nossa sociedade se defronta atualmente, entre elas a educação e a violência. Não é este o local para uma abordagem adequada dessas questões, mas devo dizer que os sistemas educativos poderiam ser melhorados se se insistisse na ligação inequívoca entre as emoções atuais e os cenários de resultados futuros, e que a exposição excessiva das crianças à violência da vida real, nos noticiários e na ficção audiovisual desvirtua o valor das emoções na aquisição de desenvolvimento de comportamento social adaptativos. O fato de tanta violência gratuita ser apresentada sem um enquadramento moral só reforça sua ação dessensibilizadora"

Os elementos oferecidos por Damásio em seu livro nos possibilita muitas reflexões para entendermos o mundo atual como se passa. Perceber o quanto da nossa capacidade de resposta, enquanto sociedade, a problemas reais, pode ser diferenciada dependendo do sistema socio-cultural no qual estamos inseridos é um passo importante. Se há um conjunto de fatores biológicos - e aqui vale destacar a situação de forme no mundo contemporâneo e seus desdobramentos no campo biológico - há também um conjunto de fatores socio-culturais que influenciam nossas respostas racionais a uma dada questão. E isso o autor nos demonstra a partir do funcionamento do nosso cérebro.

Para Damásio, o erro de Descarte, a partir da expressão "Penso logo Existo" está no fato de que seu pensamento celebrava a separação entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, dimensões e funcionamento mecânico de um lado e a substância mental indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro.

O autor explica que se dedicou, então, a esse erro específico de Descartes, entre tantos por ele cometidos porque ele levou a uma separação cartesiana do mundo, com reflexos no pensamento de neurocientistas, no modo como a medicina ocidental aborda o estudo e tratamento das doenças tanto em temos de investigação como de prática médica, tendo abandonado a abordagem orgânica da mente-no-corpo de Hipócrates que durou até o renascimento.

E arremata:

"Versões do erro de Descartes obscurecem as raízes da mente humana em um organismo biologicamente complexo, mas frágil, finito e único; obscurecem a tragédia implícita no conhecimento dessa fragilidade, finitude e singularidade. E, quando os seres humano não conseguem ver a tragédia inerente à existência consciente, setem-se menos impelidos a fazer algo para minimizá-la e podem mostrar menos respeito pela vida."

"No entanto, a mente verdadeiramente incorporada que concebo não renuncia aos seus níveis mais refinados de funcionamento, aqueles que constituem sua alma e seu espírito.  ...em toda a sua dignidade e dimensão humana, são os estados complexos e únicos de um organismo."

Esse estudo nos dá pistas importantes do porque a humanidade chegou até aqui e quais caminhos poderemos escolher prevendo cenários futuros aonde se pretende chegar.

Atingir o níveis mais refinados de funcionamento, aqueles que constituem sua alma e seu espírito não será tarefa fácil. Mas imprescindível para mudar o curso de uma trajetória cujo futuro nos parece cada vez menos promissor.


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