sexta-feira, 3 de junho de 2016

Entre músicas e aviões, uma viagem

Minhas atividades me levaram a viajar muito de avião. Primeiro na Embratel, onde trabalhei, depois como dirigente sindical.
Em todas essas ocasiões eu percebia que um momento que deixava nós passageiros muito angustiados era quando iniciávamos o processo de passagem do estado sólido para o gasoso. Explico melhor: quando o avião pega a cabeceira da pista para iniciar a corrida que o levará a decolagem, naquele momento é o sólido. Isso porque ele está sobre a pista, e isso nós estamos acostumados. Quando ele se descola da pista e começa a subir, bem, ai estamos entrando numa outra dimensão, porque abaixo de nós só restará o gasoso. Por isso essa apreensão danada nos momentos que antecedem a decolagem. Porque foge à nossa compreensão essa mudança tão radical. Depois que o avião estabiliza no gasoso, ai temos a sensação que estamos no sólido.
Fita Cassete
No passado as companhias de aviação ofereciam uma bebida alcoólica para nos ajudar a espantar o medo. Mas isso só ocorria após a decolagem. Então, passei a usar um walkman - para os que não sabem era um aparelhinho portátil de reprodução de fita cassete munido de um fone de ouvido.
Acho que fita cassete aqui do lado a maioria já ouviu falar.
Bem, voltamos ao medo. Para espantá-lo passava a usar a música. Então acionava o play do walkman e ia ouvindo música, com os olhos fechados, esperando aquela transição do estado da matéria.
Como gostava de ópera, costumava gravá-las para ouvi-las. Uma das minhas preferidas era Carmina Burana, de Carl Orff. O CD com essa opera, que utilizei para gravar a fita cassete, foi produzido pela Grammophone, uma execução da Chigago Symphon Chorus and Orchestra e regência de James Levine, com 23 faixas de música. Coincidentemente consegui gravar no lado A da fita até a faixa 10 do CD, começando o lado B com a faixa 11, que reproduzo abaixo.
Bem, numa determinada viagem, por mera coincidência, iniciei a execução da fita pelo lado B, faixa 11, exatamente no momento que começava nossa viagem rumo a mudança de estado da matéria, ou seja quando o avião está na cabeceira da pista, o piloto aciona a potencia máxima das turbinas, e inicia aquela corrida frenética, todo mundo tenso e a aeronave trepidando muito.
Por mera coincidência, mais uma vez -  foram muitas né mesmo - a música começa num ritmo frenético. Naquela época,  para tornar o clima ainda mais de suspense, as aeronaves muito velhas fazia com que as partes de plástico internas batessem muito aumentando ainda mais o ruído existente e por decorrência a sensação de medo. Então, de olhos fechados, ia somando o ritmo frenético da música com o barulho e a trepidação da aeronave até que, de súbito descolávamos do chão. Cessa o barulho interno, a música entra num outro ritmo, e o medo desaparece, passamos por aquela transição incólumes e agora podíamos relaxar. Aquilo se transformara num momento mágico, uma coisa inexplicável. Uma viagem. Repeti, ainda muitas vezes, aquela experiência fascinante, inexplicável.

Não sei se ela ainda pode ser reproduzida, se o tempo entre o momento que o avião inicia aquela corrida até decolar é o mesmo tempo da música que são os primeiros 30 segundos. Contudo, para quem quiser experimentar é só imaginar-se num avião, ele na cabeceira da pista, turbinas a todo vapor, o piloto solta os freios e ele parte, toda a aeronave treme, vc afundado na cadeira, ansioso, aguardando ele sair do chão e ouvindo essa música. Boa viagem!
Segue abaixo o áudio.

Track 11.wav

2 comentários:

  1. Companheiro, a minha experiência diz que podemos simular a vontade, fechar os olhos, etc. Mas, nada consegue desfazer a insegurança infernal da mudança de estado que você falou. Passei a vida profissional viajando de avião. Cheguei a superar o medo. Mas, estaria mentindo se dissesse que me sinto seguro. Em bons tempos só conseguia relaxar quando ainda circulavam umas doses alcoólicas nos voos, algo raro atualmente. Ouvi a canção. É linda e atraente. Porém, confesso que provavelmente não conseguiria dar muita atenção a ela. Ainda sou daqueles que ficam de olhar vidrado em algum parafusinho, como se eles se mantivessem no lugar exclusivamente pelo poder do meu olhar.
    Abraços, Jorge

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