segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Trem de Ferro

Catulo da Paixão Cearense


Num trem,
em grande disparada,  pai
e filho corriam. E ambos
o que viam?

As montanhas, os montes,
os horizontes,
o matagal cerrado
os penedos
os rochedos,
os arvoredos...
Tudo a correr com a rapidez do vento                      
tresloucado.

E o trem, que era em verdade o que corria,
parecia
estar parado.


A criança, o petiz, cheio de espanto,
lhe perguntou: "Papai,
por que é que tudo ao longe está correndo
tanto,
e o trem daqui não sai?!"


Os passageiros riam, pois
sabiam
que o petiz se enganava.
O trem, que parecia estar
imóvel,
era de fato o que corria
e voava.

Dos passageiros todos, um,
somente nem de leve sorriu. E
então os passageiros riram dele
porque ele não riu.

E o poeta (era um poeta...) disse,
então:

"É natural, senhores,
a ilusão
do petiz iludido.
Muitas vezes a nós a mesma coisa
já tem acontecido.
E vós, ó meus senhores,

- os cientistas, os sábios, os
doutores - caís no mesmo engano
lisonjeiro, pois, afinal, todos nós nos
enganamos, quando, todos os dias,
exclamamos:
— Como é que o tempo passa tão
 ligeiro!... E nós é que passamos".

,
Fábulas e alegorias. Apud Ferreira, 1966: 15-6.

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