terça-feira, 26 de maio de 2015

O Ocupe Estelita e o PT (III) - O papel do PT e sua relação com o movimento


Por Hercílio Maciel



A luta travada pelo Movimento Ocupe Estelita coloca na agenda do dia uma questão relevante: a liberdade da cidade. Esse é um debate que tem acontecido, com graus diferentes de intensidade, em todo o planeta.

Segundo Robert Park,

[…] a mais consistente e, no geral, a mais bem-sucedida tentativa do homem de refazer o mundo onde vive de acordo com o desejo de seu coração. Porém, se a cidade é o mundo que o homem criou, então é nesse mundo que de agora em diante ele está condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem nenhuma ideia clara da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo. (Roberto Park; on social control and collective behavior (Chicado, Chicado University Press, 1967) p.3 Publicado no artigo A liberdade da Cidade, David Harvey, Cidades Rebeldes, p.27, Ed Boitempo, 2013.

Se Park está certo, a luta por refazer a cidade é a luta por refazer a nós mesmos. Mas também é uma luta que não se tem a natureza clara do que seja essa tarefa. Por isso não se pode esperar dos militantes do Movimento Ocupe Estelita, clareza na tarefa que se propõe. Pelas informações que colhi, parece muito consistente entre eles a ideia força do que se opõe: o modelo de cidade que vem se reproduzindo no Recife.

Em 2011, proferindo palestra num seminário promovido pelo Diretório Municipal do PT em Recife, Jan Bitoun, Professor de Geografia da UFPE, usando como metáfora o filme Recife Frio, de Kleber Mendonça, fez a seguinte provocação: A cidade que se está construindo não está tornando a sociedade recifense mais fria, perdendo uma de suas principais características: a hospitalidade, a acolhida?

A questão sugerida pressupõe uma reflexão que só poderá se desenvolver se a cidade tiver a liberdade para fazê-lo. Como refletiu Harvey, a tarefa de alcançar a liberdade da cidade é difícil e pode tomar muitos anos, mas precisa ser feita. Abaixo trecho do poema de Bertold Brecht, usado por Harvey em sua reflexão:

              
               Para Mudar o mundo
              Muitas coisas são necessárias para mudar o mundo:
             Raiva e Tenacidade. Ciência e indignação.
             A iniciativa rápida, a reflexão longa.
             A paciência fria e a infinita perseverança
             A compreensão do caso particular e a compreensão do conjunto
             Apenas as lições da realidade podem nos ensinar como transformar a
             realidade.

Um partido que nasceu da luta por uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna, que tem no socialismo a referência para construção dessa sociedade e, ao mesmo tempo, vem experimentando o exercício do poder real, suas possibilidade e suas limitações, o PT deve apoiar a luta do MOE - como eles mesmos se chamam. De forma solidária, generosa, sem se prender às reações mais duras por parte de alguns dos seus integrantes, pelas lacunas deixadas. Sabendo, por experiência própria, o desafio que é assumir a vanguarda de um debate que, fugindo ao que está posto, propõe, na sua essência, fazer refletir sobre a cidade que queremos, para nós e para nosso(a)s filho(a)s e neto(a)s, ou, o que queremos ser.

A mais bem elaborada expressão territorial da sociedade que somos, a cidade deve então ocupar cada vez mais a centralidade do debate interno ao Partido.  A provocação que nos faz o MOE pode e deve contaminar positivamente o PT e seus filiado(a)s.

Para David Harvey,  
O direito inalienável à cidade repousa sobre a capacidade de forçar a abertura, de modo que o caldeirão da vida urbana possa se tornar o lugar catalítico de onde novas concepções e configurações da vida urbana podem ser pensadas e da qual novas e menos danosas concepções de direitos possam ser construídas. O direito à cidade não é um presente. Ele tem de ser tomado pelo movimento político. (David Harvey em A liberdade da cidade, publicado em Cidades Rebeldes; Boitempo; 2013; P34)

Por isso o apoio solidário do partido a essa luta e reconhecimento do acerto que foi a nota oficial em apoio ao Movimento Ocupe Estelita.

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