Durante a Assembleia Nacional Constituinte, em 1988, eu e vários outros companheiros e companheiras, uma parte ligada ao movimento sindical, estivemos no Congresso Nacional, discutindo a política de telecomunicações e os direitos dos trabalhadores. Voltaríamos àquela instituição de 1990 a 1993 para discutirmos assuntos similares. Visitamos o gabinete de vários parlamentares para apresentar nossos argumentos sobre os pontos que defendíamos, dialogando com indivíduos de todos os perfis, dos mais ideológicos aos mais fisiológicos. Independente do perfil, encontramos muitos permeáveis aos nossos argumentos, que mostravam tomar conhecimento, naquele momento, dos detalhes dos nossos pontos de vista do assunto debatido. E logramos algumas vitórias em relação à política de telecomunicações, turno de 6 horas, anistia dos trabalhadores demitidos em razão de greve, entre outros.
Em casa, com calma, após retornar de Brasília, era possível identificar o profundo contraste entre a realidade do parlamento que havíamos vivenciado e a imagem do parlamento projetada pela mídia. Havia toda uma narrativa que gravitava em torno das fraquezas dos parlamentares e pouco ou nenhum destaque para suas virtudes.
No ano da crise do Mensalão, 2005, ocorreu uma superexposição negativa do Congresso, patrocinada por integrantes da própria instituição. O assunto foi devidamente explorado pela mídia com sua velha estratégia de condução, onde era visível a diferença de pesos e medidas. O objetivo era o julgamento público dos nomes dos parlamentares e alguns partidos políticos, além de outros integrantes do governo, por ela escolhidos para serem condenados sem direito a defesa. Mais tarde, no dantesco espetáculo do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, uma ministra chegou a confessar em um dos julgamentos, que embora não houvesse provas, mesmo assim condenava o réu a prisão com base na literatura. Em benefício da dúvida, é possível que sua posição reflita sua tibieza, face a avassaladora pressão da mídia. Foi um momento de muito desgastante para o parlamento, mas em especial, para os partidos progressistas, alvos das sucessivas guerra de narrativa.
Pesquisas de opinião mostraram o quadro da baixa credibilidade da Câmara e do Senado entre os entrevistados, conforme tabela a baixo, construída com dados publicados na Carta Capital de 07/09/2005.
Esta pesquisa apurou também o dados relativos à confiança dos entrevistados em relação a outras instituições como:Igreja, Forças Armadas, Imprensa, TV ou mesmo outras profissões como médicos e engenheiros. O resultado mostrou que a Câmara, o Senado e os políticos em geral, que, diferente dos demais pesquisados, estavam enfrentando um intenso bombardeio midiático, eram os menos confiáveis para os entrevistados. Este fato é uma das evidências do que nos fala Bourdieu: as pesquisas existem para legitimarem a si mesmas.
A matéria apresenta ainda uma série histórica de 8 pesquisas similares, realizadas desde 1989, com sondagens em relação à confiança dos entrevistados nos políticos de forma genérica. Segundo os dados, em média mais de 80% dos respondentes disseram que não confiam. Isto indica que os valores de 2005 não são uma questão pontual em razão de uma situação específica, nos remetendo para o resultado de uma estratégia de comunicação de permanente desgaste do sistema político.
Os efeitos da estratégia da mídia em relação às instituições políticas, ao fazer as pessoas acreditarem que o comportamento de alguns políticos é o comportamento de todos os políticos e causa do seu sofrimento é mais desorientação e incapacidade total de reconhecer as verdadeiras causas e muito menos de tomar medidas para mudar a realidade. A maior consequência é a adesão ao status quo: se os políticos não merecem qualquer confiança, uma parcela das pessoas se sentem no direito ou de cobrar deles algum beneficio individual em troca do voto ou de não se envolver nas escolhas políticas, usando esses argumentos como justificativa. É, precisamente, a negação do que Leon Eisenberg descreve em "a natureza humana da natureza humana":
O pessimismo é muito caro para os desprivilegiados; eles cedem a ele ao preço de sua salvação... homens e mulheres devem acreditar que a humanidade pode se tornar totalmente humana para que nossa espécie atinja sua humanidade. Reformulado, uma visão sobriamente otimista do potencial do homem (baseada no reconhecimento das realizações da humanidade, mas temperada pelo conhecimento de suas fragilidades) é uma pré-condição para a ação social tornar real o que é possível. (“ANatureza Humana da Natureza Humana”, Science 176 (14 de abril de1972)]
Se considerarmos que a população se interessa pouco pela política, especialmente pelo parlamento, decerto por desconhecimento do seu papel, e sobre este desinteresses recai uma profunda crise de credibilidade, é possível inferir que cria-se assim um circulo vicioso que tende a contribuir para a queda da qualidade da representação parlamentar. O histórico das avaliações das composições da Câmara e do Senado, elaboradas pelo DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, a cada nova legislatura, corrobora com este entendimento.
Ao acompanharmos o trabalho do legislativo atual pelos canais de comunicação institucional, é possível constatar que neste quadro geral de desorientação da população, as tecnologias disruptivas das plataformas sociais agregam novos fatores desorientadores, contribuindo para acentuar esta tendência já observada de queda da qualidade do parlamento brasileiro.
Esta estratégia tem atingido principalmente os partidos do campo progressista, confirmando o quão tem sido exitosa. No histórico de votação para a
Câmara Federal, conforme o gráfico abaixo, tomando por base 2002,
quando Lula foi eleito presidente, mesmo estando no governo, observa-se a tendência de queda na votação dos partidos deste campo que em 2006 diminuiu 3 pontos percentuais em relação a 2002,
possivelmente reflexo da crise de 2005 e em 2014 diminuiu 6 pontos percentuais em 2014, quando comparado a 2010,
possivelmente em decorrência da crise forjada a partir das jornadas
de junho de 2013, esta também uma ação de comunicação, a
qual será trabalhada em outro texto. Ao analisar os dados referentes aos governos do campo conservador, observa-se um comportamento oposto: os partido que estão no governo em geral ampliam suas votações de um mandato para outro.


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