Após o golpe civil-militar de 1964, as eleições diretas para presidente da república foram suspensas, só sendo retomadas em 1989. Durante este período a Rede Globo de televisão construiu seu poder. O documentário Muito além do cidadão Kane conta um pouco dessa história. Além da parceria, a Globo também se beneficiaria do fechamento da sua principal concorrente, o Condomínio de TV e Diários Associados, após a Cassação da concessão das suas emissoras de TV pelos governos militares em 1980. A forma arbitrária da cassação causaria depois um prejuízo à União que, por decisão da justiça, foi obrigada a pagar uma idenização de mais de R$ 200 milhões em 1997.
Em 1989, na primeira eleição para Presidente, a Globo promoveu a candidato a Presidência o então governador de Alagoas, Fernando Collor cuja marca era: o “cassador de marajás”. Tinha início uma estratégia das elites de reduzir o tamanho do Estado, transferindo recursos de poder para empreendedores privados. Os movimentos sociais, o movimento sindical e uma parcela consciente da população apoiaram a candidatura de Lula, que contou com um excelente programa de televisão, a Rede Povo, veiculado no horário eleitoral, e um trabalho arrojado da militância, para chegar ao segundo turno. Foi uma sacada genial ao criar a Rede Povo, com elementos de comunicação que lembravam a então poderosa Rede Globo de Televisão. O empate no resultado das pesquisas eleitorais entre os candidatos no dia do último debate, na TV Globo, seria afetado pela edição do Jornal Nacional do dia seguinte com uma versão manipulada do debate, favorável ao candidato da Globo. Analistas afirmaram à época que a manipulação interferiu no resultado das eleições.
Nas eleições de 1994 Fernando Henrique (FHC) foi o candidato das elites, numa aliança dos partidos da velha oligarquia com o PSDB que se colocava como social-democrata. Em torno desta candidatura se formou um Consenso de Bacharéis que não abria espaços para vozes discordantes. O TSE – Tribunal Superior Eleitoral, promoveu mudanças na norma da propaganda eleitoral gratuita, proibindo elementos que foram fundamentais na campanha do PT em 1989, tais como imagens de rua, uso de elementos de comunicação do tipo Rede Povo, entre outros. FHC se elege no primeiro turno. Seu governo, mesmo sendo um desastre para o país, foi blindado pelo “consenso” restringindo a difusão das vozes discordantes. Era uma combinação para viabilizar o Plano Real que, como disse Fiori, num excelente artigo “In Memoriam”, havia escolhido FHC. A história dese governo é contada no livro de Maria Conceição Tavares: A Destruição não Criadora.
A mídia corporativa teve um papel importante, interditando o debate para favorecer a reeleição de FHC em 1998. O então deputado federal Delfim Neto, em artigo publicado na Carta Capital, escreveu: “As informações fluem com imensa rapidez dos marqueteiros de FHC para a mídia, e desta para o povo, cirando um Brasil cada vez mais virtual e inoperante.” Carta Capital 08/07/1998. FHC se reelegeria no primeiro turno das eleições.
Ao consolidar os resultados eleitorais de 1994 e 1998, considerando o total dos eleitores aptos, foi possível identificar que em 1994 o voto ninguém (abstenção + branco + nulo) chegou a 33,17% dos eleitores aptos, bem próximo aos 34,87% dados ao vencedor e em 1998, o voto ninguém alcançou o percentual de 36,17%, superior à votação do candidato vencedor que somou 33,87%. Estes percentuais de votos ninguém foram os maiores da série histórica iniciada em 1989, considerando as votações para Presidente no primeiro turno. Um palpite bem consistente é que a interdição do debate pode ter desmotivado parte do eleitorado a ir votar, favorecendo a vitória no primeiro turno.
Em 2002 Lula é eleito. Da interdição ao debate sobre assuntos relevantes para o país, a mídia corporativa passaria para uma nova estratégia: Transformar em pauta nacional tudo o que pudesse ser explorado negativamente contra o governo. O Jornal Nacional assumiu como pauta notícias como: ministro do governo Lula adquiriu uma tapioca pelo cartão corporativo, ou candidato do PSDB é atacado por uma bolinha de Papel. Desfazendo toda e qualquer ilusão do mito da neutralidade, em 2010 Maria Judith Brito, presidente da associação nacional de jornais e executiva da Folha de São Paulo assumiu de forma clara que a mídia fazia oposição ao governo. O Observatório da Imprensa veiculou críticas ao este posicionamento. Esta oposição se manifestaria de forma ainda mais perversa contra os interesses do Brasil no processo de guerra híbrida chamada Lava a Jato que, muito mais do que tentar destruir o PT destruiu a economia do Brasil fazendo-o recuar em alguns pontos em termos de sua soberania.
A eleição de 2018 foi um marco, com o uso das tecnologias disruptivas das redes sociais. A campanha de Bolsonaro no primeiro turno não teve horário eleitoral gratuito, não participou de debates entre os candidatos e mesmo assim obteve 46% dos votos válidos, equivalente a 33,5% dos eleitores aptos, um percentual similar á média histórica.
Há vários elementos que nos possibilita inferir com razoável grau de certeza que a estratégia de comunicação da campanha de Bolsonaro teve forte influência da estratégia da campanha de Trump: A Cambridge Analítica já estava no Brasil desde maio de 2016 e tinha sócio; houve disparo em massa de mensagens pelo whatsapp, plataforma preferencial dos brasileiros, teve banco de dados de destinatários adquiridos de terceiros. Em relação as fake news veiculadas, deve-se considerar que a lava a jato foi um excelente insumo.
Bolsonaro é eleito no segundo turno e seu governo, teve apoio da mídia corporativa, especialmente a agenda ultrarradical de Paulo Guedes, com privatizações feitas a toque de caixa. Em relação a chamada pauta identitária, havia divisão na mídia corporativa. Os conflitos entre o Presidente e a Rede Globo, empurrariam a empresa para a oposição ao Presidente. Em 2022 Lula conseguiu se firmar como o anti-bolsonaro e articulou em torno de si uma ampla aliança que incluiu um discreto apoio da Globo. Mesmo assim, só conseguiu sagrar-se vitorioso no segundo turno por uma margem de menos de 2 pontos percentuais, a menor diferença da história recente das eleições presidenciais.
O que se observou neste percurso foi: As comunicações enfim assumem seu papel de oposição; a centralidade das comunicações se desloca da mídia corporativa para as redes sociais; o uso de mensagens diretas a partir do banco de dados dos destinatários contorna os algorítimos das plataformas e há empresas que vendem bancos de dados.
Algumas reações como a estratégias das plataformas para coibir o uso de bancos de dados pode estar associada a necessidade das plataformas de manter o controle do algorítimo na difusão. Em relação aos conteúdos das comunicações, há esperanças de que se possa controlar pela via institucional. Deve-se considerar que normalmente a tecnologia sempre está muitos passos à frente das barreiras institucionais do Estado.
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