O ano de 2016 foi muito difícil para as forças progressistas no Brasil, por diversos fatores, já bastante divulgados.
Neste ambiente ocorreram as eleições para prefeitos e vereadores dos mais de 5.000 municípios e também as eleições presidenciais nos Estados Unidos, com a surpreendente vitória de Donald Trump.
Aparentemente distantes estes acontecimentos, foi possível identificar pontos de aproximação entre eles, a partir das informações que viriam a público posteriormente.
O ponto de ligação entre as duas eleições é a empresa inglesa de marketing político, Cambridge Analytica que prestou assessoria a campanha de Donald Trump. Conforme email’s de Britany Kaiser, ex-diretora da CA, vazados posteriormente pela mídia, a empresa britânica iniciou, naquele ano, contatos para uma parceria no Brasil com uma empresa nacional a qual já havia prestado serviços nesta área para vários políticos e empresários, entre eles o dono da Líder, João Dória jr, candidato a Prefeito da Cidade de São Paulo naquele ano.
Ainda segundo os documentos vazados, o empresário local havia sido autorizado a utilizar, mesmo que informalmente, alguns procedimentos da CA. Não se tem informação de ter havido contrato de prestação de serviços entre o parceiro da CA e o candidato do PSDB. Porém, ao analisar os resultados da eleição paulistana, não se pode desconsiderar os fortes indícios de que a linha de ação de estímulo ao voto ninguém, adotada pela campanha de Trump, pode ter sido adotada também nas eleições da cidade de São Paulo, beneficiando o candidato do PSDB, hipótese que se procura demonstrar a seguir.
O pleito ocorrido em outubro, tinha como concorrentes Fernando Haddad(PT), que disputava a reeleição, João Dória (PSDB), Celso Russomano (PRB), além de outros candidatos. Desses três candidatos selecionados, Haddad e Russomano haviam disputado as eleições em 2012 com votações suficientes para levar o resultado para o segundo turno, quando o petista se sagrou vitorioso.
Os
resultados eleitorais de 2012 e 2016 foram os seguintes:
Alguns valores merecem destaque:
João Dória venceu as eleições no primeiro turno com menos votos que o voto "Ninguém".
Quando comparado os resultados de 2016 com os de 2012, observa-se que o crescimento, em pontos percentuais, do candidato do PSDB (12,9 p.p) não seria suficiente para garantir sua eleição no primeiro turno. Foi fundamental o crescimento do voto "Ninguém" em 5,9 p.p., em desfavor dos demais candidatos cujas perdas, em relação à 2012, somaram 18,8 pp.
Para entender melhor o que poderia ter ocorrido, era necessário investigar onde mais variou o voto ninguém entre os dois pleitos e qual sua relação com as bases eleitorais dos candidatos em 2012. Era preciso peguntar ao território.
O cálculo
Foi escolhido como base territorial os bairros de São Paulo e calculado para cada um deles o total das votações dos principais candidatos em 2012 e a diferença dos totais de votos Ninguém entre os dois pleitos. A próxima etapa seria investigar a correlação entre as variáveis obtidas, duas a duas. Para realizar esta tarefa foram utilizados 3 métodos:
A análise gráfica.
Foram construídos 3 gráficos (ver aqui) e em cada um deles foram relacionadas, por bairro, a variação do voto ninguém com os resultados eleitorais, em 2012, de Serra(PSDB), Haddad(PT) e Russomano (PRB), duas a duas. A imagem do gráfico revelou que os votos ninguém tiveram os maiores crescimentos exatamente nos bairros onde os candidatos Haddad e Russomando conquistaram os melhores resultados eleitorais em 2012. De forma oposta, nos bairros onde Serra teve as maiores votações, o crescimento do voto "Ninguém" foi muito menor ou até desprezível.
A partir deste resultado, é possível concluir que o voto "Ninguém" teve impacto relevante no resultado eleitoral de 2016 na cidade de São Paulo, com seus impactos negativos atingindo as maiores bases eleitorais de Haddad (PT) e Russomano(PRB), num total de 16,2 pontos percentuais, impedindo a realização de um segundo turno.
O segundo método utilizado foi a correlação de Pearson, para investigar a força da relação entre a variação do voto "Ninguém" de 2012 para 2016 com as votações de Serra (PSDB); Haddad (PT e Russomando (PRB) em 2012.
Como já explicado na postagem anterior, quanto mais próximos de 1 mais forte é a correlação entre o comportamento das duas variáveis analisadas. O sinal positivo indica que, quando uma cresce a outra também cresce e vice-versa e o negativo indicando que, quando uma cresce a outra diminui.
A análise revelou que a força da correlação entre as votações em 2012 de Russomano e Haddad e o crescimento do voto "Ninguém" de 2012 para 2016, teve um índice positivo – ambas cresceram – e sua força foi de moderada a forte. Já em relação aos bairros onde Serra foi o mais votado em 2012, a variação foi negativa, com força moderada, confirmando que a variação do voto "Ninguém" teve os maiores crescimentos exatamente nos bairros onde o candidato teve as menores votações em 2012.
O último método utilizado para esta análise foi feita a partir do território.
Foram montadas 4 cartografias da cidade de São Paulo e em cada uma delas, para cada um dos bairros, os valores acima da média referentes as votações dos candidatos e a variação dos votos "Ninguém". Ver abaixo:
Bairros onde a variação do voto “Ninguém” de 2012 para 2016 foi acima da média (CINZA) e bairros onde os candidatos tiveram, em 2012, votação acima da média.
SERRA: AZUL; HADDAD: VERMELHOR; RUSOMANDO: LILÁS
A percepção visual dos mapas dispensa maiores explicações. Na região da periferia do município, onde os candidatos Hadadd e Russomando tiveram suas melhores votações em 2012, foi onde se verificou os maiores crescimentos do voto ninguém – mapa cinza. E praticamente não ocorreu crescimento deste voto na região central do município, onde o candidato José Serra teve as maiores votações em 2012.
Os três métodos de análise convergem para o mesmo entendimento. O crescimento do voto "Ninguém", ao incidir nas bases dos dois candidatos que dividiam os votos da periferia e que, em 2012, foram responsáveis por levar as eleições para o segundo turno, afetou o resultado eleitoral.
O ano de 2016 foi muito difícil para as forças progressistas e a cidade de São Paulo foi um dos palcos desta luta. O juiz parcial Sérgio Moro manobrou as prisões de Antônio Palocci, decretando a temporária há uma semana das eleições e a preventiva há poucos dias do pleito. A mídia corporativa cumprindo seu papel de oposição ao PT, manteve o padrão de notícias onde um mesmo texto e exposição é divulgado em todos os veículos, não esquecendo de lembrar aos consumidores das notícias que o cidadão que estava sendo preso havia ocupado tais e quais cargos nos governos do PT de Lula e Dilma. Isto é parte da guerra que travam constantemente na defesa dos interesses dos endinheirados, conforme abordado nas postagens anteriores. Tampouco se pode descartar a outra guerra travada, de forma cotidiana, contra a gestão de Haddad, pela mídia corporativa local e, ainda, as manifestações de 2013 e a crise do aumento das passagens de ônibus em São Paulo. Ou mesmo erros na estratégia da campanha e que tais.
O uso destes argumentos para explicar a queda na votação de Haddad perde força quando também se observa os impactos negativos do voto ninguém, ainda mais forte, nas bases eleitorais de Russomano. Há ainda outro fator interessante: a diferença entre o resultado eleitoral e o resultado das últimas pesquisas realizadas dias antes das eleições, nas quais, segundo os dados apurados, Haddad esboçava reação, tendo chegado a 14% do total de intenções de votos, com o resultado sendo visto como “embolado”.
Os fatos aqui narrados e que só viriam a público algum tempo depois das eleições, fortalecem a hipótese levantada de que houve, sim, uma ação orquestrada de envio de mensagens diretas para as pessoas, com foco nas bases eleitorais dos candidatos que poderiam levar as eleições para o segundo turno, estimulando-as a não votar nos candidatos. Esta linha de ação foi duplamente exitosa: beneficiou diretamente o candidato do PSDB e removeu de um cargo importante, a Prefeitura da maior cidade do país, um potencial candidato à presidência em 2018, como depois, pelos fatos já tornados públicos, viria a acontecer.
Com
esta postagem encerramos esta série dedicada ao papel da comunicação
na política, e sua interferência nos resultados eleitorais. Na
próxima postagem vamos abordar o que dizem as pesquisas sobre a visão do povo.




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