sábado, 15 de março de 2025

A influência das comunicações na política: Estratégia do voto ninguém II

 

No primeiro texto da série A Influência das Comunicações na Política: A Estratégia do voto ninguém I”, foi relembrado que na campanha de Trump, um dos eixos de ação tinha por objetivo manipular o eleitorado da candidata adversária, a partir de mensagens individuais, para que se mantivesse afastados das urnas, ou seja, para que não fosse votar. Uma ação difícil de ser detectada pela campanha da candidatura alvo. Também foram abordados fatos que convergiam para o entendimento de que a estratégia de campanha do norte-americano havia sido utilizada na candidatura de Bolsonaro, possibilitando ao grupo político a disponibilização de um banco de dados de contatos bastante rico, a ser utilizado nas campanhas seguintes. Com o comprometimento das eleições de 2018 em razão de acontecimentos extra-campanha, foi procedida a análise mais detalhada dos resultados das eleições presidenciais de 2022 no Brasil, com uma especial atenção para o voto Ninguém, assim considerado o resultado da subtração do total de Eleitores Aptos, o total de Votos Nominais: EA – VN = Ninguém.

Os dados foram consolidados por região geográfica – Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Para cada região, foi calculada a variação, entre o primeiro e o segundo turno, dos votos nominais dos dois principais candidatos - PT e PL, e o voto Ninguém. Esses cálculos mostraram que o total dos votos Ninguém aumentou nas regiões Norte e Nordeste, onde Lula foi o mais votado no primeiro turno, e diminuiu nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, onde Bolsonaro foi o mais votado no primeiro turno.

Nesta postagem está sendo apresentada uma análise mais detalhada, com o objetivo de identificar como o voto ninguém influenciou cada uma das candidaturas. Para isso foram totalizados os votos referentes a Ninguém, PT e PL – variáveis selecionadas - por município e zona eleitoral, num total de 6.102 recortes territoriais, para cada turno de votação. Na etapa seguinte desta análise foi calculado o quanto variou entre o primeiro e o segundo turno, para cada recorte territorial, os votos em Lula(PT), Bolsonaro (PL) e Ninguém.

A pergunta a ser respondida foi: como se comportaram as três variáveis: variação dos votos Ninguém, Lula e Bolsonaro, analisadas duas a duas? Ou seja, para cada recorte territorial, como a variação do voto ninguém pode ter influenciado na variação do voto em Lula ou Bolsonaro.

Para realizar esta análise foram utilizados dois métodos:

No primeiro método foi aplicada a função da estatística chamada “correlação de Pearson”, que defini um valor que indica a força da correlação entre as variáveis estudadas. Quanto mais forte significa que, no conjunto de dados analisados, ao comportamento de uma das variáveis corresponde, na maioria dos casos, o comportamento semelhante da outra variável. O resultado desse cálculo varia entre -1 e +1. Quanto mais próximo de 1 significa que as variáveis estão fortemente correlacionadas. O sinal indica o sentido desta correlação. Se positivo indica que ambas as variáveis mudam em um mesmo sentido: se uma cresce a outra cresce e vice-versa. Se negativo indica que elas variam em sentido oposto: se uma cresce a outra diminui e vice-versa.

Aplicado este cálculo ao conjunto de dados selecionados conforme acima descrito, agrupados por região geográfica, chegou-se ao resultado conforme tabela abaixo:


Todos os valores da tabela são negativos porque a variação do voto ninguém tem sentido oposto à variação dos votos nominais. Quando um cresce o outro diminui.

Ao lado de cada resultado foi informado a força da correlação, seguindo o que está estabelecido na definição da função.

Foi observado então que nas regiões Sul e Sudeste praticamente a correlação entre o voto ninguém e as votações nas duas candidaturas tem uma correlação entre elas fraca ou desprezível. Isto significa que a função não considerou relevante a influência do voto ninguém na votação das candidaturas estudadas.

Nas regiões Centro-Oeste e Norte há uma correlação de moderada a forte entre as variáveis analisadas, similar para as duas candidaturas. Isto significa que o voto ninguém influenciou o voto nas duas candidaturas analisadas de forma equivalente para ambas.

Na região Nordeste há uma situação diferenciada. Principal base eleitoral de Lula, nesta região foi constatada uma correlação muito forte entre a variação dos votos ninguém e a variação dos votos na candidatura Lula e muito fraca em relação a variação dos votos ninguém e a variação dos votos na candidatura Bolsonaro. Isso significa que o voto ninguém influenciou fortemente o voto na candidatura Lula e teve pouco significado, segundo essa função, na votação de Bolsonaro.

Seguindo esta mesma metodologia de análise, foram investigadas as correlações entre as mesmas variáveis, agrupando os resultados por estados da região Nordeste. Foi observado que a força da correlação da variação dos votos ninguém é muito maior em relação a variação do voto em Lula do que em Bolsonaro, nos estados da Bahia, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe. Nos demais estados o contraste na força da correlação é bem menor, conforme tabela abaixo:

 

Esses números oferecem pistas significativas de que os episódios denunciados e que envolveram a Policia Rodoviária Federal na obstrução dos eleitores de Lula, principalmente no Estado da Bahia, é apenas uma parte da ação voltada para desconstruir o voto na candidatura Lula. É grande a probabilidade de se confirmar  a hipótese que se está trabalhando, o centro da tática eleitoral de desmobilização do eleitorado de Lula tenha passado pelas redes sociais. Conforme explicado em textos anteriores, esta foi uma linha de ação da campanha de Trump.

O segundo método utilizado foi a análise gráfica. Para a realização desta análise foram considerados os mesmos dados utilizados no método anterior, referentes aos 6.102 recortes territoriais e a partir desses dados foram construídos 10 gráficos, dois por região geográfica, 1 para cada candidatura, correlacionando a variação do voto ninguém com a variação do voto em Lula ou em Bolsonaro.

Caso o leitor tenha interesses nesta análise é só clicar aqui.

Os gráficos revelaram detalhes importantes:

Bolsonaro não perdeu voto em relação ao resultado do primeiro turno, nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, sendo insignificante a quantidade de recortes territoriais das regiões Norte e Nordeste onde ele teve no segundo turno uma votação inferior ao do primeiro.

Em sentido oposto, Lula perdeu votos em todas as Regiões, num total de 15% dos recortes territoriais, distribuídos em todo território nacional, a maioria localizados nas regiões Nordeste, sua principal base eleitoral, e Norte. Boa parte dessas perdas ocorreram nos recortes onde aumentou o voto ninguém.

Essa diferença no comportamento do eleitorado entre as duas candidaturas, com impactos negativos sobre a campanha de Lula, distribuídos por todos os Estados da Federação, é um fato que sugere ter havido sim, uma ação orquestrada pela companha de Bolsonaro, para frear o crescimento dos votos adversários a partir da desmobilização do seu eleitorado ou potencial eleitorado. Seria razoável supor que, no Nordeste, no segundo turno, a candidatura Lula ampliasse a vantagem alcançada no primeiro turno de mais de 2 votos para cada voto em Bolsonaro, este não foi o caso.

Esta perda de votos em 15% dos recortes territoriais, em termos de valores absolutos, tem pouco significado no resultado final. Deve-se analisar o seu peso a partir da eficiência da estratégia da campanha de Bolsonaro ao atacar a candidatura petista a ponto de consegui desmobilizar uma parcela de mais de 100 mil eleitores que, no primeiro turno, haviam votado no candidato do PT, 85% deles residentes nas regiões nordeste e norte onde, no primeiro turno, Lula havia conseguido a maioria dos votos. Qual o impacto dessa estratégia no eleitorado das demais candidaturas que não conseguiram chegar ao segundo turno? Ai pode estar a resposta do porquê a candidatura Lula, ter crescido do primeiro para o segundo turno, em termos percentuais, menos que a candidatura Bolsonaro, em todas as regiões.

As análises aqui apresentadas se incorporam ao conjunto já publicado e que têm o objetivo de contribuir para o entendimento do papel das comunicações, nas eleições, agora reforçadas pelas redes sociais. A estratégia do voto ninguém não é nova. Foi demonstrado como a interdição do debate, como ocorreu nas eleições de FHC, produziu este efeito. O que se vê agora é um outro modelo. O uso de informações direcionadas às bases dos candidatos adversários, a partir do uso de bancos de dados de contatos obtidos como já mencionado anteriormente. Seus conteúdos, ajustados ao perfil dos indivíduos, podem ter sido produzidos pelas campanhas que fazem uso inclusive de fake news ou a partir das meias verdades produzidas pela mídia corporativa que, cotidianamente, vão contribuindo para enriquecer o banco de dados de informações negativas em desfavor dos candidatos progressistas, beneficiando as candidaturas do campo conservador.

Uma última postagem abordando ainda este assunto, visa oferecer aos leitores como este tipo de ação pode ter influenciado nas eleições na cidade de São Paulo em 2016.

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