Mesmo com as limitações das pesquisas, conforme já abordado anteriormente, a partir da crítica de Pierre Bourdieu, o objetivo deste texto é analisar algumas delas que foram realizadas nas favelas e bairros populares, para em seguida refletir, a partir desses dados, sobre a questão das comunicações.
Apena uma ponderação sobre tais pesquisas: no caso em apreço, o material disponível ao qual se teve acesso, investigou junto às pessoas fatos sobre sua realidade objetiva de vida. Este método adotado contribuiu para melhorar a credibilidade do que foi produzido.
No começo de 2017 a Fundação Perseu Abramo publicou uma pesquisa qualitativa realizada no Jardim Ângela, em São Paulo. Poucos meses depois o Instituto Maurício de Nassau também divulgou uma pesquisa similar, realizada em 48 bairros da periferia do Recife.
Ambas as pesquisas usaram a metodologia qualitativa e foram realizadas pouco tempo depois dos acontecimentos que marcaram 2016.
O interessante desses dois trabalhos é que, mesmo se tratando de localidades geograficamente distintas, as repostas colhidas revelaram muita similaridade.
As pessoas valorizam a família e a comunidade, vivem bem em seu local de moradia, pertencem ao Bairro, de onde não pretendem sair. Já estão acostumados a violência, associada ao tráfico de drogas. Sabem que para realizar o sonho da casa própria, saúde, dinheiro, a feira, o emprego e o conforto, só com muito esforço, estudo e trabalho. Tem clareza quanto a importância do ensino superior para melhorar o salário, mas não se sentem preparados para disputar uma universidade pública e não têm grana para pagar uma particular.
O Estado é um ilustre desconhecido. Os entrevistados não conseguem
distinguir as diferentes instâncias de governo – Federal, Estadual
e Municipal - e é baixa a credibilidade nas instituições do Estado,
com destaque para a polícia. Para eles, estado é confundido com
governo e governo são os políticos, vistos pela maioria como um
estorvo, que só aparece nas eleições. Porém, têm clareza que é
de responsabilidade dos governos (Estado) a segurança pública, saúde,
edução, transporte público, serviços vistos como de má qualidade
além da falta de áreas de lazer. Para eles isto decorre das escolhas dos governos.
Sonham serem empreendedores, para ter seu próprio negócio e ascender socialmente, mas falta dinheiro além do obstáculo que o governo(Estado) representam com a cobrança de impostos.
Desconhecem políticas públicas, só manifestando aprovação e admiração por algumas quando citadas. Os governos só são avaliados pela ótica “do que fazem por nós”, desconhecendo as ideologias.
Parte do grupo acha a corrupção intolerável e o sucesso da Lava a Jato é citado por ter colocado políticos e ricos na cadeia.
Em uma das pesquisas, os participantes não entendem que haja conflito de interesses entre trabalhador e patrão. O grande conflito é entre o Estado e o Cidadão ou Sociedade e governantes. Todos são vistos como vítimas do Estado, onde a burocracia e a má gestão sufocam a atividade das empresas.
Na ausência de espaços de lazer, o shopping e a Igreja tornaram-se espaços de sociabilidade. A estabilidade política é vista como essencial para que as pessoas possam ter ascensão social, e Lula, Sílvio Santos e Dória são vistos como exemplo de pessoas que vieram de baixo e venceram por méritos próprios. A pesquisa também concluiu que a mídia foi exitosa em reproduzir sua visão de mundo, com o mercado sendo mais confiável que o Estado.
Esta realidade não difere muito de uma outra pesquisa, realizada nas favela do país, publicada 4 anos antes, no livro: Um país chamado favela. Um trabalho de maior fôlego, realizado a muitas mãos, sob a coordenação de Celso Atayde e Renato Meirelles, autores do livro, e que enfoca tanto os avanços ocorridos nas favelas quanto a percepção que os moradores têm das mudanças. Naquele ano, 2013, o pais vivia um momento de crescimento e as favelas ficaram fora das manifestações ocorridas no asfalto. Mas, o Estado já era um grande ausente.
Segundo os dados coletados, 76% das pessoas opinaram que a vida melhorou no período imediatamente anterior, mas poucas atribuem esse avanço às políticas públicas ou aos empregadores. Para 14%, a família é a principal responsável pela evolução. Deus é citado por 40% e segundo 42%, a ascensão é resultado do próprio esforço. Apenas 1% atribuem às políticas governamentais. Nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, as Unidades de Polícia Pacificadora eram vistas positivamente, favorecendo o crescimento dos negócios legais. Porém, à época, controlavam apenas 18% das favelas. O restante era dominada pelo tráfico e milicias. Segundo especialistas ouvidos, o Estado deixou de implementar outras ações para melhorar serviços públicos e infraestrutura urbana, como previa o plano inicialmente.
A grande melhoria ocorrida nessas comunidades, segundo os autores, foi o resultado do aumento do emprego com carteira assinada, majoritariamente ofertado pelo setor privado. Esta realidade, por si só, torna difícil a compreensão da relação entre tais melhorias e a ação do governo.
A pesquisa registra ainda as carências do lugar, em relação as políticas do Estado. Os moradores valorizam a família, há sentido comunitário, e houve crescimento da renda e melhorias da porta da casa para dentro. Para fora, convivem com gravíssimos problemas estruturais e falta de serviços públicos básicos e de qualidade, que são responsabilidades do Estado.
O livro teve ainda o mérito de, ao resgatar o processo histórico que resultou nas favelas e que remonta aos quilombos, todos duramente combatidos pelas elites, mostrar como tal prática ainda persiste nos dias atuais, como foi o caso mais recente do Pinheirinho, uma ocupação de terreno há mais de 20 anos em São José do Campos (SP), cujos moradores foram expulsos, de forma violenta, por decisão da justiça. As comunidades hoje consolidadas em todo o país, só conseguiram se manter em seus atuais territórios em razão de muita luta e solidariedade, contra a vontade do Estado e sua elite dirigente. O Estado que falta nessas comunidades é o mesmo que esteve ou ainda está contra sua consolidação.
A questão que se coloca é: essa pequena amostra da realidade brasileira em relação ao Estado não é uma visão predominante no restante do país?
Na próxima postagem vamos analisar esta realidade vis a vis a questão da comunicação.
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