Na postagem anterior:O que pensa a população – uma breve avaliação baseada nas pesquisas disponíveis, foi observada uma forte relação das pessoas com a família, a comunidade e o lugar e uma visão negativa do Estado, normalmente confundido com o governo e este com os políticos e a corrupção. Há carências de ações de governo na prestação de serviços públicos e na melhoria da infraestrutura. Muitas ações são lembradas apenas quando o entrevistado é estimulado, mesmo as que são bem avaliadas. Em relação à economia, houve aumento das oportunidades de se conseguir renda seja no trabalho com carteira assinada seja como empreendedor, mas os entrevistados não têm a percepção da relação deste aumento com as políticas de governo.
Os lugares onde as
pesquisas foram realizadas revelaram profundos contrastes entre o
crescimento econômico e as carências territoriais de serviços e
infraestrutura. O Estado não é visto como parte do desenvolvimento
do lugar. Melhorou a renda mas não é observada melhoria nos serviços públicos e na infraestrutura.
Uma das pesquisas realizadas em 2016 mostrou ainda que entre os entrevistados, a política é vista como algo muito superficial, as pessoas são pautadas pela mídia corporativa.
A comunicação na Favela
Conforme pesquisa realizada pelo Data Popular em 2015, o morador da favela é mais conectado com os meios tecnológicos que o do asfalto. Isto porque para a favela a internet tem, antes de tudo, a capacidade de gerar renda. Segundo 57% dos entrevistados houve aumento de renda graças à Internet.
Segundo matéria da Agência Brasil de 2015, o Facebook estava presente na favela de Heliópoles, em São Paulo, desenvolvendo um trabalho de capacitação em marketing digital para 5.000 pequenos negócios, e em 2023 a imprensa noticiou que o Google estava mapeando favelas para criar endereços digitais. O trabalho era uma parceria entre a BigTech norte-americana, a ONG Gerando Falcões, e a empresa Na Porta. O projeto tinha como meta para aquele ano chegar a mais de 20 favelas, contribuindo para resolver um importante problema para aqueles moradores, a falta de um CEP e nome de rua, que os impedia de receber correspondências e compras feitas pela Internet. Um outro projeto da mesma empresa, o Favela Gaming, desenvolve ações visando estimular jovens a ingressar no mercado de jogos eletrônicos.
Essas comunidades, que ao longo de sua história tiveram que lutar até para se manter no lugar que ocupavam, vem desenvolvendo a partir de suas próprias iniciativas, estratégias para melhorar a renda. Segundo matéria jornalística, movimentaram em 2023 mais de R$ 200 bilhões.
As gigantes de comunicação, ao se inserirem no cotidiano das pessoas, sendo parte da solução de problemas, vão conquistando legitimidade perante elas, a partir das relações de consumo.
O estímulo da atividade econômica fomentando o
empreendedorismo individual, associada com a critica dessas
comunidades a ação do Estado, confundido com o governo, reforça o caráter neoliberal deste modelo de comunicação, que transforma o cidadão em consumidor. A valorização da família, da comunidade e do lugar, captadas pelas pesquisas nesses segmentos sociais, não se traduz em ação mobilizadora para uma intervenção política. Não há sinais de uma disposição para um agir comum em relação ao Estado. Sua reação está muito mais na crítica e na reclamação do governo, como fazem os consumidores diante de um produto ou serviço. E os políticos e os partido seguem essa mesma lógica, transformando-se em fornecedores.
O que está acontecendo nas favelas e bairros da periferia estudados pelas pesquisas, é extensivo ao conjunto da sociedade, ressalvadas as particularidades de cada lugar. Esta é uma realidade que já estava presente quando as comunicações ainda eram de forma verticalizada, de cima para baixo, cuja plataforma principal era a radiodifusão.
Herbert Schiller, em 1982, reconhecia como produto do trabalho da mídia corporativa e sua propaganda o fortalecimento do Mito do Individualismo, em prejuízo das relações comunitárias e consequentes desdobramentos na política:
O MAIOR TRIUNFO DA MANIPULAÇÃO, mais evidente nos Estados Unidos, é ter tirado vantagem das circunstâncias históricas especiais do desenvolvimento ocidental para perpetuar como verdade uma definição de liberdade expressa em termos individualistas.
E complementa:
“Há evidências suficientes para argumentar que os direitos individuais "soberanos" são um mito, e que a sociedade e o indivíduo são inseparáveis. Como a pesquisa de muitos sociólogos, antropólogos e outros cientistas e historiadores mostrou, os primórdios da cultura estavam enraizados na colaboração e valores éticos.”
Atualmente pode-se considerar que trata-se de uma nova etapa do uso das
comunicações como um dos pilares do poder, agora suportada por nova
plataforma tecnológica. Estudando os impactos das comunicações através das redes sociais, o filosofo Byung-Chull Han entende que "O que ocorre hoje é uma vigilância sem vigilância. A comunicação é aplainada como que por moderadores invisíveis e rebaixada à condição de consenso. Para ele, A transparência que se exige hoje dos políticos é tudo menos demanda política... O imperativo da transparência serve, acima de tudo, para desmascarar e expor a classe dos políticos, para transformar indivíduos em objeto de escândalo.
A falta que faz o Estado
Os valores coletivos captados pelas pesquisa nesses territórios podem ser vistos como um grande potencial para um agir político, baseado em uma ética comunitária. Mas este potencial está sendo desperdiçado por uma lógica que reduz a vida a uma visão de consumidor, visão essa que ocupa os espaços não ocupados pela política, a qual deveria se pautar por um diálogo baseado em uma ética comunitária servindo de base a ação dos governos na condução do Estado.
O outro lado das Big Tehc’s ou a mão que afaga é a mão que apedreja
Este vácuo na ação política deixa margens para que as mesmas empresas
que investem em oportunidades de negócio e fomentam uma intensiva troca de informações entre as pessoas, influenciem na política, conforme publicado na postagem Comunicação: A cegueira situacional dos progressistas V – O jogo da extrema direita. Trata-se de uma influência bastante qualificada porque dispõem de muitos dados dos usuários, desde seus hábitos de consumo até questões ligadas à sua psiquê. E elas fizeram uso destes dados em 2016, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos e no BREXIT, na Inglaterra e há fortes suspeitas de que também interviram nas eleições no Brasil, entre 2016 a 2018.
Na próxima postagem algumas reflexões sobre tão importante questão política: o vácuo político deixado pelo Estado.
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