Há exatos 525 anos tinha início a trajetória da ocupação europeia do território que viria a ser o Brasil. Pode-se considerar esta data o marco inicial da implantação da cultura de origem ibérica no chamado novo mundo, a partir do poder do Estado Português. O objetivo desta postagem foi reunir alguns elementos históricos, procurando estabelecer conexões entre o presente e o passado, que possam ajudar a compreender um pouco da cultura da elite brasileira.
Este esforço busca resposta para alguns questionamentos: Quais as razões históricas da nossa fragilidade institucional? Porque projetos que têm demonstrado êxito, têm sido tão atacados pela mídia? Porque a elite brasileira, historicamente nunca demonstrou preocupação com país? Poque ocorre um golpe e o Brasil volta ao mapa da forme, enquanto empresários são beneficiados com subsídios e isenções. Essas indagações levam a tentar entender os elementos histórico da formação da cultura dominante, dentro da máxima: não se pode mudar aquilo que não se conhece.
Um dos primeiros livros que li foi O Povo Brasileiro, de Darci Ribeiro. Há uma narrativa apaixonada pelo povo, com uma atenção especial aos negros e aos índios, ao final as maiores vítimas dessa cultura. Darci acreditava que haveria um momento da construção de uma identidade nacional popular – tipo civilização dos trópicos. Para além dos aspectos sociológicos, me deparei com um trecho do livro História do Brasil de Frei Vicente de Salvador, escrito em 1627, que chamou a atenção:
e deste mesmo modo se haviam os povoadores, os quais por mais arraigados, que na terra estivessem, e mais ricos que fossem, tudo pretendiam levar a Portugal, e se as fazendas e bens que possuíam soubessem falar também lhes haveriam de ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é papagaio real para Portugal; porque tudo querem para lá, e isto não tem só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem, e a deixarem destruída.
(HISTÓRIA DO BRASIL POR FREI VICENTE DO SALVADOR - Escrita na Bahia a 20 de dezembro de 1627)
Esse trecho revela que havia uma relação predatória que não se restringia apenas aos seres humanos escravizados, mas também ao território. Um ambiente de transitoriedade e espoliação geral cujo o único objetivo era prover a riqueza necessária para seu beneficiário voltar para a metrópole e desfrutá-la. Essa visão transmitida por Frei Vicente ao revelar que, também em relação ao território, não havia qualquer sentido de pertencimento, me permitiu considerar que ela fez e faz parte da cultura dominante e se manifesta no cotidiano. Porque alguém jogava o lixo doméstico do outro lado do muro da sua residência e não se dava conta das consequências, o mau cheiro, o risco de doenças? Observando o comportamento da população em geral, comecei a considerar que para a nossa sociedade o espaço que não é privado ou privativo, não é um espaço público, mas o espaço de ninguém e que portanto pode ser usufruído sem qualquer consideração com o outro.
Além da espoliação da terra e dos escravos, outros aspectos culturais forjaram a cultura dominante da elite brasileira. No livro Raízes do Brasil, Sérgio Buarque, pontua elementos de raízes ibéricas, tais como: o culto a personalidade; o valor inferido ao homem que não precise depender dos demais e a obediência como virtude suprema entre todas, único princípio político verdadeiramente forte. Para ele esses aspectos não favoreceram as associações entre os homens, predominando um tipo de organização política artificialmente mantida por uma força exterior, característico de ditaduras.
Celso Furtado, estudando a formação econômica do Brasil, desenvolveu o seguinte entendimento: como os portugueses não encontraram no Brasil metais e pedras preciosas com a mesma facilidade dos espanhóis no altiplano andino, foi a empresa agrícola de produção de açúcar que viabilizou a colônia.
Para fazer girar essa atividade, um dos investimentos fundamentais era a aquisição de escravos para os trabalhos braçais tanto na lavoura da cana quanto na produção do açúcar. Então os escravos entravam na equação do negócio como investimento. O modelo era subordinado ao capitais estrangeiros vindos de Amsterdã. Os holandeses adquiriam o açúcar bruto dos portugueses, refinavam e distribuíam na Europa, se apropriando da parte mais lucrativa do negócio. Parte do lucro do produtores decorria do uso da mão de obra escrava. Nessa época, o dono do negócio privado era, ao mesmo tempo, o empreendedor e o poder político local, ao qual todos deviam obediência.
Neste arranjo autárquico, comparando as quantidades de escravos do Brasil e dos Estados Unidos, já no século XIX, Celso constata que, partindo do mesmo contingente de 1 milhão de escravos em ambos os países, no início do séculos 19, o Brasil, mesmo tendo importado no mínimo 500 mil escravos nos primeiros 50 anos do século, de acordo com o censo de 1872 tinha 1,5 milhão de escravos. Já os Estados Unidos, tendo importando a terça parte do quantitativo das importações brasileiras, chega à guerra da Secessão (1861) com 4 milhões de indivíduos. Com estes dados ele conclui que no Brasil a taxa de mortalidade era bem superior a de natalidade, indicando as precárias condições de vida desses trabalhadores. “O regime alimentar da massa escrava ocupada nas plantações açucareiras era particularmente deficiente.“
As conclusões de Celso coincidem com o estudo sobre a fome no Brasil, relatado no livro Geografia da Fome, do médio pernambucano Josué de Castro, em meados do século XX, . Ele mostrou que no chamado Nordeste Açucareiro, a fome era endêmica, isto é, permanente e específica de uma determinada região. E não era problema do clima ou da terra e sim da dieta que era imposta aos escravos por ordem do seu dono cuja base era a farinha de mandioca, pobre em proteínas e frutas e que depois foi imposta aos trabalhadores rurais assalariados, pelos baixos salários que recebiam. Ele mostra também que, mesmo após o Brasil se tornar mais urbano, os pobres das cidades também eram submetidos às mesmas restrições alimentares .
Em seus estudo, ele identifica que além da fome endêmica, no Nordeste Açucareiro e na Amazônia, havia epidemia de fome em razão de eventos climáticos no semiárido nordestino e subnutrição no restante do país. A chocante conclusão a que chegou o médico pernambucano é que, independente dos distintos tipos de forme, as pessoas estava morrendo em razão da fome. E tudo isto por falta de políticas públicas para garantir a segurança alimentar da população. Observando este processo na região nordeste, é possível considerar que a dominação pela fome era um projeto de poder, assim como constatou Darci Ribeiro, em relação à educação. As elites dominantes não conheciam limites ao exercício do poder, a ponto de sacrificar seu próprio investimento, os escravos, para alegria dos traficantes.
O fim do tráfico de escravos a partir de 1850, era o fim de um negócio que dera origem a algumas das maiores e mais sólidas fortunas brasileiras da época. Em síntese, da morte pela fome dos escravos foi construída parte da fortuna dos traficantes. Essas fortunas não só viabilizaram o comércio como parece estarem relacionadas com a formação do Banco do Brasil.
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