terça-feira, 20 de maio de 2025

Formação cultural da classe média – alguns tópicos e algumas reflexões II

 

A crise dos anos 80 impulsionou a luta pelo fim da ditadura. Os militares optaram por uma abertura lenta e gradual, começando pela eleição direta para governadores em 1982. Novos partidos foram formados ou retomadas algumas antigas siglas, pode-se dizer que apoiados em parcela da classe média que, apesar dos perigos, ousou enfrentar a ditadura. Como descrito na postagem:A luta do povo Brasileiro, o povão é quem mais sabe das terríveis consequências de se envolver em lutas pelo seu direito. De forma indireta, em 1985, é eleito o primeiro presidente civil, após 21 anos de governos militares.  Na chamada nova República se agrava o processo inflacionário herdado dos governos militares. Os 3 planos econômicos cujo objetivo era conter a inflação, impôs à classe média novos sacrifícios, escassez de produtos e confiscos de correção de salários. 

Na primeira eleição direta para Presidente, em 1989, foram os setores médios da sociedade que levaram a candidatura de Lula para o segundo turno.

Com ajuda da Globo, Collor é eleito no segundo turno e no primeiro dia de governo editou mais um plano econômico o qual atingiu em cheio a classe média, confiscando simultaneamente a poupança e a correção dos salários no valor da inflação do período que excedia 80%.

Após o primeiro governo pós ditadura, um “ Consenso de Bacharéis” leva ao poder Fernando Henrique Cardoso. Com sua equipe de economistas formada nos Estados Unidos, - trataremos desse fato na postarem de hegemonia -  aporta em Brasília para, como disse o candidato a presidência, por fim a era Vargas. Na postagem As Elites Brasileiras – alguns recortes da história e algumas reflexões - 3, abordamos esse assunto. A agenda neoliberal chamou, mais uma vez, a classe média a dar sua cota de sacrifícios. As privatizações e a redução do investimento público fizeram desaparecer empregos de boa qualidade. Era um governo centrado numa visão de economistas que nada entendiam de Brasil e pior, apoiados em uma aliança com a velha oligarquia nacional, para implementar um plano econômico traçado em Washington.

Conforme escreveu em 1997 o professor José Luís Fiori,

se o Estado já foi retirado da condição desenvolvimentista de locomotiva do crescimento, todos os demais indícios são de que o novo modelo emergente de "capitalismo liberal" não só manterá como aprofundará as características mais perversas e as fragilidades mais notórias do modelo que entrou em crise nos anos 80

E continua: 

...expansão do desemprego nas grandes cidades, escassez crescente de crédito para os pequenos empresários, deterioração progressiva dos serviços públicos e da decomposição explícita da infraestrutura de energia, de transporte e de saúde, que tomou décadas para ser construída. In Memoriam

A distribuição dos sacrifícios foi extremamente desigual em termos regionais. As privatizações e a reforma bancária levou a uma concentração de empresas, bancos e empregos de boa qualidade, nas regiões de economia mais dinâmica do país. 

De 1995 a 2001 os setores médios da sociedade perderam postos de trabalho. Engenheiros, por exemplo, se lançaram a fazer concurso públicos para órgãos da administração pública, por falta de emprego na área de engenharia. Outros trocaram seus carros por utilitários para vender alimentação.  

Apenas lembrando os desastrosos resultados dessas políticas: agravamento da desigualdade, sucessivas crises econômicas, juros que chegaram a bater a casa dos 50% ao ano, deterioração do patrimônio público, aumento do endividamento externo, inflação em dois dígitos, dólar na casa dos R$ 4,00, reservas cambiais praticamente zeradas, expondo o Real a ataques especulativos, geradores de crises.

Sobre uma herança histórica de desigualdades, as mudanças culturais do neoliberalismo 

Segundo David Harvel, o neoliberalismo se fundou com base no aumento do controle do Estado sobre o trabalho, nas mudanças nas normas, hábitos a atitudes culturais e políticas; mudanças nos valores coletivos para um individualismos muito mais competitivo, tendo como valor central uma cultura empreendedora. Os empregos mais valorizados passaram para as esferas legal e financeira.

A sociedade  brasileira que, historicamente, tem sido profundamente marcada pela desigualdade, resultado de uma cultura dominante de violência, privilégios e restrição de direitos, que em seus pouco mais de um século de regime republicano, viveu breves interregnos de ambiente democrático,  foi exposta à cultura neoliberal. Este processo contribuiu para ampliar as desigualdades, aumentando a concentração de riqueza e poder e degradando a qualidade de vida da população. 

O início da mudança

Pela primeira vez na história do país, um candidato com a história de Lula chega ao poder, uma quebra de paradigma. Enquanto o povo se enchia de esperança, a elite se preparava para travar o combate. Como disse o professor João Manoel Cardoso de Melo, Lula não é da "turma deles". 

O primeiro governo Lula foi marcado pelo desafio de reorganizar a política econômica, combater a pobreza e projetar o país internacionalmente para expandir sua inserção no comércio mundial. Para a mídia os destaques foram os escândalos de corrupção, especialmente o que ficou conhecido como mensalão, uma farsa que virou manchetes na mídia corporativa e que transformou julgamentos no STF em um espetáculo midiático. 

Os ataques à imagem do governo e do Presidente não foram suficientes para evitar a sua reeleição, no segundo turno, com votação expressiva.  (61% dos votos válidos)

No segundo governo, Lula ampliou sua inserção na classe média, inclusive com o sucesso das medidas econômicas para combater a crise de 2008 que começou nos Estados Unidos. Terminou o mandato com 87% de aprovação, segundo as pesquisas

Dilma foi eleita em 2010 com um percentual um pouco abaixo de Lula, e conseguiu conduzir bem o governo, mantendo confortáveis índices de aprovação, segundo as pesquisas de opinião, até as jornadas de 2013. Estas jornadas foram manifestações da classe média -  sobre este assunto vamos abordá-lo em outra postagem. Mesmo assim, Dilma teve seu mandato renovado em 2014, - ano em que começou a Lava a Jato - quando parte da classe média foi pras ruas para garantir sua vitória no segundo turno.

As sucessivas vitórias da aliança liderada pelos candidatos do PT, obrigou a Elite a expor sua verdadeira face antidemocrática. Volta o filme e uma nova marcha da insensatez é colocada em movimento. Golpe contra Dilma, prisão de Lula que ficou incomunicável por decisão do STF e governo Bolsonaro, atropelando o que se entende minimamente por civilização. Nesta marcha, desde o primeiro governo Lula, a mídia foi a grande opositora, como afirmou a Diretora da ANJ: em 2010 a imprensa assumiu publicamente que não é isenta. A grande operação para virar o jogo, mesmo atropelando as regras democráticas, envolveu o governo dos Estados Unidos, a mídia corporativa atuando em uma articulação entre todos os veículos e o poder judiciário, por ato ou omissão.

Com toda essa articulação golpista e, ainda, a estratégia da vitória de Trump, Bolsonaro obteve no segundo turno das eleições de 2018 o segundo pior percentual de votos (39%), desde 2002, considerando o total de eleitores aptos. Esse resultado mostra que não houve um debandada da classe média em relação à sua candidatura.

Conclusão

O Brasil é um país que só em meados do século XX, a partir do governo Vargas, passa a dispor de sistemas legais que permitiram a ascensão da sociedade, com algum grau de impessoal e mérito.

Na primeira metade do século XX começaram a ser publicadas obras que contribuiriam para um melhor entendimento do país: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Casa Grande e Senzala; Sobrados e Mocambos, de Gilberto Freire, Formação econômica do Brasil de Celso Furtado; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior, entre outros. 

Todo esse conjunto de saberes e outros mais, vão conformando uma Intelligentsia Nacional, num ambiente democrático de construção da cultura brasileira. Chega a 1964 e este processo é violentamente abortado pela Ditadura Militar, contra o povo, suas lideranças políticas e seus  intelectuais, como já descrito.

Superada a ditadura, o país retoma a caminhada da democracia, uma nova Constituição é apresentada à Nação, as dificuldades vão sendo enfrentadas. A eleição de um governo democrático e popular consegue se firmar, vencendo o preconceito e todas as conspirações das elites. Um clima de superação começava a tomar conta da sociedade. Havia muito a ser feito, mas havia confiança de que o país teria capacidade de chegar lá. Então abre-se todo um período de crises forjadas pela mídia, que culmina com a invasão dos prédios da praça dos três poderes, e a descoberta de um plano, envolvendo militares graduados e o candidato derrotado nas eleições de 2022,  para assassinar o Presidente, o Vice e um Ministro do STF. 

Submetida diuturnamente a todo esse processo histórico e informacional, incluindo até "fake news" do tipo Lava A Jato, além de outras criadas pelas redes sociais e pela mídia corporativa, em quem a classe média vai confiar? Como disse Noam Chomsky em entrevista ao El País, as pessoas já não acreditam nos fatos.

Enquanto o mundo virtual gerava desorientação, a classe média se via diante de uma dura realidade: com o comprometimento dos serviços públicos, teve que enfrentar a degradação da sua qualidade de vida sendo obrigada a dispor de parcelas cada vez maiores da sua renda para satisfazer suas necessidade de transporte, educação, saúde, segurança, previdência, e sendo a que, ao mesmo tempo, mais paga imposto direto sobre a renda no país.

Neste contexto, entendemos que esses recortes trazidos nestas postagens são elementos que podem contribuir para ponderar o julgamento que parte da intelectualidade faz da classe média, conforme apresentado Formação cultural da classe média – alguns tópicos e algumas reflexões - I.

Acredito que o grande e verdadeiro problema do Brasil, que o torna "Uma potência acorrentada", como  tão bem diagnosticou o Professor Fiori, está na cultura dominante da elite brasileira, cujo principal protagonista me parece ser uma nefasta aliança entre o Agronegócio, o setor financeiro e a mídia corporativa. Tio San apenas opera através dos interesses deste protagonista.

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