quinta-feira, 15 de maio de 2025

Formação cultural da classe média – alguns tópicos e algumas reflexões - I

 Em uma entrevista a Revista Carta Capital, em março de 2006, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos disse:

A Classe média é a classe da ascensão. Chegou ao topo na escala social. É sempre conformada e muito conservadora. Teme mudanças. Tende a atribuir especificamente a si própria, ao seu mérito, ao seu valor, o fato de ter ascendido. Consequentemente, não existiriam obstáculos outros que não o de desempenho pessoal” analisa. E complementa: “é a grande vilã do Brasil moderno.” ...vive no setor terciário de serviços e comércio. É reacionária e inteiramente alienada.“

Outros intelectuais como Marilena Chauí e Jessé de Souza têm manifestado uma avaliação igualmente crítica à classe média.

Para além da crítica por eles formulada, o objetivo é levantar alguns recortes da história do Brasil que possibilitem melhor compreensão do processo de formação desta classe.

Aproveitando o sucesso cinematográfico brasileiro, ganhador de um Oscar, “Ainda Estou Aqui”, queria destacar Rubens Paiva. Sua história, cujo desfecho ocorreu há pouco mais de meio século, ajuda na construção de um quadro de referências. Engenheiro, deputado federal cassado, dono de construtora, um típico membro da classe média. Segundo a Wikipédia, seu pai tinha uma grande fazenda em Eldorado Paulista, da qual fora prefeito pela Arena, partido da ditadura militar. Rubens havia estudado em colégios e universidade tradicionais de São Paulo. A relação dele com o pai era conflituosa, especialmente quando o assunto era política. Ele chamava o pai de “coronel”. Rubens foi sequestrado e assassinado pelo agentes da repressão, durante a ditadura.

Dilma Russel, ex-presidente do Brasil, segundo a Wikipédia, provinha de uma família de classe média alta. Envolveu-se na política, em defesa do socialismo e foi presa e torturada pelos agentes da repressão. 

Esses episódios foram bem mais frequentes no período da ditadura, do que se possa supor. A Comissão da Verdade revelou e elucidou vários casos. E estávamos no Brasil da na segunda metade do século XX, ou seja, mais de 450 anos que os portugueses aqui chegaram.

Brasil, século XXI. donos de empreiteiras, dirigentes políticos e até um ex-presidente, foram condenados pela justiça, pelo crime de corrupção, em um processo eivado de irregularidades que terminou sendo anulado pelo Supremo Tribunal Federal, sob as barbas do qual toda essa patifaria ocorreu. Prejuízos para o Brasil, os trabalhadores e as vidas dos injustamente penalizados por um juiz de piso, parcial e uma meia dúzia de procuradores interessados em ganhar dinheiro, com o apoio decisivo da mídia corporativa e interferências do governo dos Estados Unidos.

Pano rápido, início da colonização. No modelo de negócio – produção de açúcar – a estrutura social era o senhor de engenho e a mão de obra escrava, vítima de todas as crueldades, mostrado na postagem:As Elites Brasileiras – alguns recortes da história e algumas reflexões - 1

É a partir dessa realidade que começam a se constituir as primeiras cidades. Em decorrência, os primeiros “funcionários” da burocracia foram os filhos próprios ou naturais dos senhores de engenho. Segundo Sérgio Buarque, foi através dessa “improvisação” que a cultura do patriciado dos engenhos chegou à burguesia urbana e logo se tornaria comum a todas as classes, como norma ideal de conduta.

A educação existente no final do século XIX que pudesse impulsionar alguma mudança cultural na população, era extremamente precária. O censo de 1872 revelou que 99,9% dos escravos eram analfabetos; o país tinha pouco mais de 12 mil alunos matriculados no ensino médio e em torno de 8 mil no ensino superior. Os cursos superiores eram concentrados nas faculdades de direito de Olinda/Recife e de São Paulo e na Universidade de Coimbra, restrito a uma pequena minoria da elite.

A imprensa também chegou por aqui muito depois de todos as cidades da América espanhola que. em 1742 contavam com imprensa, com milhares de títulos de livros publicados. No Brasil, em razão de proibição da corte portuguesa, a imprensa só foi permitida a partir da vinda da família real para Brasil em 1808.

Após a abolição da escravidão, a opção pelo trabalho imigrante nas regiões mais dinâmicas da economia, incorporou à sociedade pessoas com outra cultura e qualificação e que deram sua contribuição na formação da classe média. As regiões menos dinâmicas não receberam tais contribuições.

Após a proclamação da república, implanta-se um sistema de governo oligárquico, uma república apoiada no poder dos chefes locais. As dificuldades com a educação persistem – o Brasil foi o último país da América Latina a ter faculdades e universidades. A primeira república e seu ajuntamento de chefes políticos locais - o coronelismo - não favoreceu muito a formação de uma classe média independente. A inexistência de integração norte-sul do país, por via terrestre dificultava a mobilidade que poderia influenciar na formação do segmento social estudado. A BR101 que possibilitou a primeira integração norte-sul por via terrestre  só foi concluída em 1950

No governo de Getúlio Vargas - 1930 a 1945; 1950 a 1954 - essa realidade começa a mudar. Foram criadas Universidades Públicas, proteção legal para os trabalhadores, instituído o concurso público para formação de uma burocracia estatal profissionalizada e estável, reduzindo a submissão dos servidores aos chefes políticos locais. Foram criadas várias estatais, gerando empregos de qualidade, mas tudo isso em um regime de ditadura.

Após Vargas, o país respira um interregno democrático. Juscelino Kubitschek - 1956 a 1961 -  constrói Brasília, Indústrias são implantada, criada a Sudene - Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste e tal.

Em 1964 o país é assaltado pelo golpe civil militar. Episódios como os de Rubens Paiva e Dilma Rusself vão se multiplicando. Com o crescimento da economia em valores acima do 5% ao ano, até a crise da dívida dos anos 80, havia uma ampla oferta de empregos de boa qualidade, várias estatais foram criadas, a classe média ganhou dinheiro. Para os que se lançavam no debate político, como nos casos citados, podiam pagar com a própria vida pela “desobediência”. Lideranças, dirigentes, militantes de esquerda, religiosos, sofreram prisões, torturas, quando não foram assassinados. O mesmo aconteceu com parlamentares e jornalistas. Mesmo militares, ao menos 6.591 foram cassados, presos, torturados ou mortos pelo regime. Um excelente documentário: O Dia Que Durou 21 Anos, conta um pouco de todo esse triste período da nossa história.

Assim como na Lava a Jato, a mídia corporativa - Folha de São Paulo; O GloboTV Globo;  apoiou a ditadura. Muitas matérias apresentavam os crimes da ditadura com ações contra terroristas e escondiam as atrocidades praticadas nos porões da ditadura. Mesmo sem ser veiculados na Imprensa, as famílias tomavam conhecimento e temiam por seus membros, que, por qualquer motivo, corriam o risco de sumirem e nunca mais serem encontrados.

Em paralelo à repressão, os governo militares impuseram a reforma do ensino que ficou conhecida como MEC-USAID, em meados dos anos 60. Segundo estudiosos, pelo acordo o ensino superior exerceria um papel estratégico porque caberia a ele forjar o novo quadro técnico que desse conta do novo projeto econômico brasileiro, alinhado com a política norte-americana. O envolvimento da USAID nesse projeto era o braçodo governo norte-americano para estender sua hegemonia

Enquanto os militares impunham ao país um modelo subserviente aos interesses dos Estados Unidos, expulsavam do país Paulo Freire e estão envolvidos na morte de Anísio Texeira, dois destacados educadores brasileiros.

Apesar das adversidade, as pessoas foram se organizando. Final dos anos 70 e início dos anos oitenta, surge o novo sindicalismo brasileiro.

Na crise dos anos 80, mais uma vez a classe média foi chamada ao sacrifício. Aumentodo preço e escassez de combustível, juros altos, inviabilidade dos financiamentos habitacionais, escassez de produtos, inflação alta, ciranda financeira. É fato que a população mais pobre sofreu muito, para a classe média, porém, a situação representou queda no padrão de vida.

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