Por Hercílio Maciel
Quantos de nós, individualmente, não sonhou com a possibilidade de reunir condições para conservar a cidade que tínhamos, com suas paisagens, seu casario e quintais? Quantos não nos frustramos diante de uma devastação de determinada área, com a qual desenvolvemos uma relação de afeto, para, em nome do progresso, ali serem erguidas novas construções, viadutos, rodovias, torres de apartamentos ou escritórios? E a cada evento desse nos sentimos cada vez mais estrangeiros na nossa cidade. Mas ai vem a vida e nos empurra numa determinada direção. Cotidianamente somos bombardeados por informações de que esse é o caminho do desenvolvimento. Vai gerar mais empregos, diminuir a miséria e tal. E, ao contrário do prometido, a miséria vai se espraiando ao redor dessas ilhas de um progresso que exclui, marginaliza, desumaniza. E a nossa cidade vai perdendo o seu jeito de ser e nós vamos, juntos com ela, também perdendo nosso jeito de ser, nossos sonhos, nossa poesia. E as coisas vão entrando num ritmo alucinante, num corre corre sem perspectiva, nos tirando da convivência, das amizades, do que dá sentido à vida. E cada pessoa, isoladamente ou em grupo, vai desenvolvendo suas estratégias para, nesse emaranhado de técnicas que as empurra à desumanização, ir conseguindo preservar sua humanidade, e o doce prazer da vida. E então vão surgindo as tribos, as gangues e tantos outros grupos que, fortalecidos pelo renascer nesse ambiente muitas vezes tão hostil, vão assumindo características próprias dessa contemporaneidade tão decadente. Existir pressupõe, não apenas o tempo, mas também o lugar. Então esses grupos vão ocupando e construindo seus territórios de existência, seus lugares, até que, sem nem saber porque, forças exteriores, com uma linguagem incompreensível, põe máquinas em movimento para, varrer dali todos os resquícios que davam àquele território as relações de identidade com os grupos que os conformavam. Lutas sangrentas, muitas vezes, são travadas. E o entorno, nos mais das vezes assiste aquela luta, pasmo, incógnito, assustados e, as vezes, até em oposição aos que resistem em sair. Poucas vezes solidário. Impossível compreender como se contrapor ao progresso. Como querer congelar a vida naquela mesmice de sempre, ao invés de abraçar os vetores do desenvolvimento. E a vida e a cidade vão perdendo o encantamento.
E se uma parte desses jovens, conseguiu compreender a dinâmica desse movimento e alimentar a esperanças de que uma outra cidade é possível? E se eles resolverem se unir para, num primeiro momento, se contrapor ao caminho historicamente proposto? E se tiverem em suas mãos uma poderosa arma chamada Internet, que lhes possibilita interagir em rede, trocando informações em tempo real e fazendo de uma ideia força o objeto para um encontro? E se essa ideia força encontrar um campo fértil para incendiar corações e mentes para discutir a cidade? E se a força dessa ideia despertar a solidariedade de tantos que acalantavam um sonho igual e vêm a inciativa como algo capaz de alimentar utopias, criar esperanças?
Os jovens, em sua grande maioria, que fazem o Ocupe Estelita, passam a ideia de que esse pode ter sido o caminho para que conseguissem conquistar o respeito de vários setores da sociedade, tanto em Recife, quanto no Brasil e até em algumas partes do Mundo. Sua disposição de luta mostra que têm sido capazes de se entregar de corpo e alma a causa a qual abraçaram. Poderiam, como fazem jovens de classe média, está gastando seu tempo com os afazeres, lazeres e prazeres que a sociedade contemporânea oferece. Compras, viagens, o carro do ano, a roupa de marca, enfim o ritual que se esperava que estivessem cumprindo. Mas não, preferiram enfrentar o gás de pimenta, as bombas de efeito moral, as balas de borracha e os cassetetes das forças da ordem, além do linchamento moral daqueles que, prisioneiros de uma forma de enxergar a vida para a qual foram treinados, não conseguem dialogar com o novo. E todo esse sacrifício para defender uma ideia. Uma ideia simples, de uma cidade mais humana, porém, portadora de uma força que parecia adormecida nos corações e mentes e que, subitamente, foi despertada. Um basta na mesmice que se tornou a vida cotidiana em uma metrópole, cada vez mais um não lugar.
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