Hercílio Maciel
Conheci o conceito de “cegueira situacional” a partir do método de planejamento estratégico situacional, desenvolvido por Carlos Matus, em parceria com a fundação Altadir de Planificacion Popular. Reflete a situação em que o sujeito se vê diante da dificuldade para encontrar a solução de um determinado problema porque se coloca tão próximo a ele que perde a visão do todo, onde podem ser encontradas informações relevantes que ajude no redirecionamento dos esforços, melhorando as chances de êxito.
Quando li as matérias sobre a queda de popularidade de Lula, entre dezembro e janeiro próximos, segundo as pesquisas de opinião, e a imediata atribuição desta queda, entre algumas causas, ao boato sobre o PIX, me questionei: Pode um boato causar uma queda tão brusca na avaliação de um governo? É este mesmo o grau de vulnerabilidade?
Concordando com Pierre Bourdieu: Não existe opinião pública. As entrevistas, ao final, captam o que está sendo comunicado às pessoas. Recentemente foi divulgado por um desses institutos o resultado de uma pesquisa na qual algo como 60% dos entrevistados entendiam, à época, que as medidas do Ministro Fernando Haddad não iriam resolver os problemas econômicos do país. Não me considero uma pessoa mal informada. Formação, habito de leitura, consumo de informações poderia me incluir no rol de pessoas razoavelmente informadas sobre as questões politicas e econômicas. E mesmo assim não tinha à época uma opinião sobre o resultado das medidas do Ministério da Economia. Pelos indicadores econômicos sequer tenho informações sobre esta tal crise na economia. O que mais tenho ouvido é um ambiente de múltiplas incertezas, isso é fato.
De onde vem esta “opinião” captada pelas pesquisas? Se observarmos atentamente à mídia corporativa, por exemplo, podemos constatar que na crítica da política econômica sempre consultam analistas do “mercado”, para emitir suas “opiniões”. Esse ente chamado mercado nada mais é que os endinheirados do mundo, hoje bem conhecidos graças à obra de Peter Phillips, Titãs of Capital, que tive acesso a excelente resenha do Professor Ladislaw Dowbor. (Outras Palavras)
Estas pesquisas refletem o que a mídia corporativa e agora também as redes sociais comunicam sobre o governo. Ambos, operando em arenas distintas, promovem uma disputa política há muito, de baixíssima qualidade, porque perpassada por mentiras de todos os tipos, segundo os objetivos dos seus donos e lideranças. É o famoso controle da opinião pública segundo os interesses do "mercado”, pensada desde a primeira metade do século passado. E é através desta infraestrutura comunicacional que o governo se comunica com a população, logo também sujeito aos mesmos interesses.
Diante das reações críticas à manipulação da mídia e das redes sociais me vem à mente a percepção de que há uma grande possibilidade de se estar diante de uma “cegueira situacional” como bem conceituou Matus. E não estou me referindo aos seus conteúdos. A questão está noutro patamar.
Em seu livro Por uma Outra Globalização(2000), o Prof. Mílton Santos, já constatava:
Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção atual do capitalismo globalizado. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças.
O controle dos espíritos é produto direto das comunicações, seja através da mídia corporativa, seja pelas bigtech’s e suas plataformas de redes sociais. O que mudou foi a tecnologia e a forma de controle: na primeira a manipulação se dá pelo conteúdo e na segunda pela difusão. Esta é a natureza da comunicação patrocinada pelo capital, desde meados do século passado, em plena guerra fria. E tiveram um papel importante para o colapso da União Soviética.
Quando são feitas críticas às mentiras e manipulações da mídia corporativa ou das redes sociais, é como se estivéssemos querendo convencer o escorpião a não ferroar o sapo na fábula do sapo e do escorpião, fazendo-o negar sua natureza.
É interessante que quando se analisa a ascensão do Nazismo, na Alemanha pós I guerra mundial, costuma se omitir o papel relevante que tiveram as comunicações e seu notório ministro Joseph Goebbels.
O desenvolvimento tecnológico atual permitiu uma poderosa rede de comunicação individualizada. A eleição de Donald Trump em 2016 foi resultado de uma estratégia exitosa de uso inteligente destes meios para chegar com as mensagens certas às pessoas certas. Os progressistas estão diante do desafio de desenvolver uma estratégia exitosa própria para chegar às pessoas sem os controles das comunicações do capital. Sem tal estratégia as soluções serão insuficientes.
28/01/2025
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