Hercílio Maciel
15/02/2025
O sistema político norte-americano estava funcionando, com os endinheirados acumulando cada vez mais riqueza e a pobreza crescendo no país, cuja política externa e vista como um perigo para a humanidade. A crise de 2008 ampliou as desigualdades internas. Mais de 700 mil sem teto, desesperança. Os partidos democrata e republicano se sucedendo no comando da Casa Branca e o chamado Estado Profundo controlando o governo. As plataformas se consolidando como a nova fronteira das comunicações e servindo até como um dos braços do poder imperial nas guerras híbridas.
Neste contexto ocorrem as eleições de 2016, com a expectativa da eleição de Hilary Clinton. Para surpresa do sistema político, ou parte dele, um candidato de fora, um outsider, chegou à Casa Branca para governar a maior potencia do planeta.
A surpresa foi de tal ordem que, em julho daquele ano um jornalista político da New York Review, Michael Tomasky escreveu um artigo com o título: “Can a Monster be elected?” (Pode um monstro ser eleito?). A resposta viria em novembro, surpreendendo vários prognósticos e pesquisas eleitorais.
O que estava por trás daquela mudança de paradigma?
Em 2018, um artigo publicado no site Outras Palavras, com o sugestivo título : Big Data: Toda democracia será manipulada?, trouxe alguns elementos que possibilitaram iniciar a construção de um quadro, com razoável grau de aproximação, do que realmente aconteceu.
Uma das figuras centrais desse processo é Michal Kosinski que, junto com sua equipe, desenvolveram na Universidade de Cambridge um algorítimo capaz de medir a personalidade de um indivíduo a partir de suas curtidas no Facebook, conforme o teste de personalidade OCEAN. Esse algorítimo foi a base do trabalho da Cambridge Analítica, empresa que assumiu a propaganda da campanha de Trump em setembro e já havia trabalhado na campanhas do BREXIT.
Segundo o CEO, Alexander Nix, “Traçamos o perfil de personalidade de todos os adultos nos Estados Unidos da América – 220 milhões de pessoas”. Para se entender a estratégia, ele utilizou na palestra duas fotos com informações distintas e um mesmo objetivo. As fotos são de uma praia. Na primeira se lê uma placa Praia privada, proibido entrar. Na segunda, Praia com risco de ataque de tubarão, perigo tomar banho. Ele questiona a plateia: Qual das duas placas terá maior probabilidade de ser obedecida? Essa foi a essência da estratégia das mensagens enviadas aos eleitores, procurando estimulá-los a agir por medo, raiva ou orgulho, segundo os interesses da campanha. Um dos pontos destacados no documento dizia respeito a enviar mensagens para os prováveis eleitores de Hilary, para que eles se mantivessem distantes das urnas. Não era possível enxergar como os americanos estavam sendo alvejados pela campanha de Trump com essas mensagens personalizadas.
Ou seja, a campanha utilizou o que mais tarde Byun-Chull Han, chamou de psicopolítica, se apropriando do comportamento dos eleitores no nível pré-consciente.
Conforme Han, as redes sociais destroem a narrativa, provocam desorientação e abrem espaço para teorias da conspiração, extremistas e que tais. Ao acrescentar a camada relativa a ciência do comportamento, os estrategistas de Trump aumentaram as chances de êxito com a exploração da realidade produzida pelas redes. Não se trata de um processo de convencimento amplo, mas de mobilizar uma parcela da população que decerto se sentia desiludida e de desmobilizar uma outra parcela que estava se sentindo decepcionada com a situação existente. Tudo indica que tenham chegado à todas as pessoas, podendo garimpar aquelas mais acessíveis as suas mensagens e, ao final, terem conseguir um saldo positivo de apoios que lhes garantiu a vitória. Há estudos que mostram como a campanha consegui mobilizar grupos que se sentem excluídos, como, por exemplo, os homens brancos, não hispânicos e de meia idade, e que têm apresentado taxa de suicídio bem maior que os demais grupos.
Fazer campanha voltada ao pré-consciente da população parece ser algo bem mais antigo. Segundo Paul Virilo, Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, desenvolveu uma estratégia de comunicação na qual “ A propaganda deve ser feita diretamente pela palavra e pela imagem, não pelo escrito”, ele mesmo um arauto do audiovisual na Alemanha. Virilo entende que tempo de leitura implica o de reflexão, uma desaceleração destrói a eficiência dinâmica da massa.
O que diferencia na situação atual é o desenvolvimento das comunicações, com possibilidades de se chegar a cada indivíduo, de forma privativa, e o apoio de outras ciências que aumentam o êxito das mensagens enviadas, além, evidentemente, das manobras patrocinadas pelos donos das plataformas das redes sociais.
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