Hercílio Maciel
Na sequência da série sobre as comunicações, este texto aborda de forma bem sucinta, os objetivos do poder, do qual as comunicações são um dos seus pilares, conforme já demonstrado no texto I.
Um dos intelectuais brasileiros que mais tem desenvolvido estudos sobre a questão do poder é o Prof José Luís Fiori. Em 2007 ele formulou uma hipótese e que agora se consolida em sua mais recente obra, "Uma teoria do Poder Global": A origem histórica do capital começa pela conquista e acumulação de poder, e não pelo “jogo das trocas” e pelo mercado mundial.
Não se pretende neste texto fazer qualquer debate acadêmico sobre esta obra. Porém é possível perceber seu grau de consistência em uma rápida rememoração de alguns fatos históricos. Começando pelas grandes navegações, que tiveram início no século XV, os europeus cruzaram os mares motivados pela busca de riquezas e usaram seu poder militar para ocupar e saquear as novas terras encontradas. No livro Armas, Germes e Aço, o prof Jared Diamond mostrou como esses três elementos foram essenciais para a vitória de conquistadores europeus sobre os povos conquistados.
Pano rápido e chegamos aos tempos atuais. As nações mais poderosas continuam a usar seu
poder para dar golpes e mudar governos que sejam vistos como hostis
aos seus interesse - isto significa não querer lhes entregar graciosamente suas riquezas - promovendo guerras por procuração ou mesmo
diretamente. Tudo para saquear os países menos poderosos. O principal protagonista neste modelo são os Estados Unidos. Já no século XIX, em uma guerra com o México, seu vizinho, fragilizado pela guerra da independência com a Espanha, os yankees conquistaram uma parte expressiva do território mexicano, que atualmente é ocupado pelos estados do Texas, Arizona, Novo México, Colorado, Utah, Nevada e Califórnia, uma região rica em ouro, petróleo, gás e carvão mineral. No século XXI a história se repete. O alvo foi o Brasil e o petróleo do pré-sal, que foram parar nas mãos dos
empresários norte-americanos, europeus e chineses, depois que uma guerra híbrida destitui
uma presidenta legitimamente eleita e prendeu o candidato com
maiores chances de vitória em 2018. Eles eram vistos como hostis aos
interesses do Império, conforme publicação e tese de doutorado de Gabriel Kanaan, baseados em quase 3.000 telegramas da embaixada dos Estados Unidos, vazados pelo Wikileaks. A principal arma dessa guerra foram as comunicações e seus tentáculos estendidos no país, como já descrito anteriormente. Poderíamos acrescentar ao título do livro de Diamond: Armas, Germes, Aço e Informação.
Antes do golpe contra o Brasil, ocorreu uma tentativa de Golpe na Venezuela em 2002. A derrota dos golpistas garantiu que o petróleo venezuelano continuasse atendendo aos interesses do povo. Há um vídeo no Youtube “A revolução não será televisionada” que conta toda essa história. O golpe foi liderado pela Globovision, principal
emissora de TV privada do país, cujo dono chegou a ocupar a cadeira de Presidente da República, sendo logo reconhecido pelo governo dos Estados Unidos. Com a derrota dos golpistas, Hugo Chaves retorna ao poder. Em 2007 o governo venezuelano não renovou a concessão da TV em Caracas. A mídia de uma maneira geral e a brasileira em particular, a mesma que, anos depois, esteve à frente
da guerra híbrida que foi a Lava a Jato, construíram uma imagem terrível de Hugo Chaves, líder da revolução bolivariana. Tudo isso porque o governo revolucionário investe os recursos do petróleo venezuelano na maioria da população.
Esses acontecimentos nos estimulou a pesquisar sobre a questão do Poder e, em especial, as comunicações e decidimos montar esta abordagem, dividida em vários textos, com diferentes enfoques que se complementam, para permitir uma melhor compreensão da natureza e do papel que desempenham as comunicações como um dos pilares do poder e, consequentemente, acumulação de riqueza dos endinheirados, conforme abordado no texto II. Várias produções intelectuais revelam esse caráter das comunicações. Entre os vários autores, tivemos acesso a produção de alguns deles: Ben Bagdikian, Herbert Schiller e Noam Chomsky.
As redes sociais, fase mais recente das comunicações, são também sua parte mais disruptiva. Têm o memo objetivo: a acumulação de riqueza. Seu principal negócio, a venda dos dados pessoais dos seus usuários, coletados à partir das suas postagens. Com dados de imensos contingentes populacionais, em vários países - no Brasil, em levantamento recente, o Facebook contava com 100 milhões de usuários e o Instagram com 134 milhões -, essas empresas passaram a dispor de igual contingente de perfis pessoais, construídos com base nos dados coletados, tornado-se peça fundamental para as guerras híbridas segundo os interesses de poder do governo imperial.
Em síntese, no
mundo mais complexo que aquele do inicio das grandes navegações,
para continuar acumulando riqueza, o poder precisa ser exercido
de forma inteligente e imperceptível para a população, como
escreveu Byung-Chull Han, abordado no texto III. As comunicações são hoje a principal "arma" para o seu exercício.
O êxito desta estratégia pode ser medido pela brutal concentração de renda. Segundo relatório da OXFAN 2025 os 10% mais ricos do planeta detém 45% de toda a riqueza do mundo. No Brasil a situação não é diferente.
Como instrumento deste poder, as comunicações atuam para pressionar os governos em relação ao percentual do orçamento público a ser transferido para os endinheirados, pela adoção de um modelo de sociedade de interesse dos grandes capitalistas e para convencer a população a aceitar este modelo. Nos casos de insurgências, procuram calar a voz ou criminalizar os movimentos sociais ou partidos políticos. Os vários meios de comunicação citados no texto I desta série trabalham sistematicamente para esse objetivo, usando múltiplas linguagens para fazer as pessoas acreditarem em mitos. Em uma de suas publicações, Consciência Empacotada, Herbert Schiller desconstrói cada um deles: O mito do Individualismo e da Escolha Pessoal; O Mito da Neutralidade; O Mito da Natureza Humana Imutável; O Mito da Ausência de Conflito Social; O Mito da Diversidade; A Fragmentação como forma de comunicação e o Imediatismo da Informação.
Como disse Frank Underwood, então Presidente dos Estados Unidos, na série House Of Cards, personagem vivido por Kevin Space: "Existe o poder da Casa Branca, mas existe um poder que está acima da Casa Branca". Este é o poder dos endinheirados. As comunicações são um dos pilares desse poder servindo para acumulação de riqueza de uma minoria e para o sofrimento da grande maioria da população.
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