O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta noticia
Música Alegria, alegria - Caetano Veloso 1967
Hercílio Maciel
Em seu livro, A Crise de Narração, Byung-Chul Han resgata o papel da narrativa que nos ancoravam no ser, lhe atribuindo um lugar. Transformando o ser no mundo em um estar em casa, criam significados e identidades. Para ele, as redes sociais vêm corroendo essa capacidade narrativa e, na falta de formas narrativas, tomam seu lugar junto às pessoas, narrativas populistas, nacionalistas, extremistas, conspiratórias, que ocupam esse vazio de identidade.
As redes trouxeram um aumento expressivo da quantidade de informações, as quais apenas geram estímulos, fragmentam a atenção e se esgotam sem si mesmas. A narração se baseia na vinculação dos acontecimentos, o armazenamento digital é cumulativo. Não há reflexão mas desorientação. A sociedade atual está muito bem informada porém desorientada.
A narração gera comunidade, reflexão, sentimento crítico. A troca de experiência entre gerações constrói a história, incorporando sabedoria à vida. Transportam valores que constituem a comunidade, ajudando a criar coesão social.
No mundo das redes sociais tudo é transformado em consumo. Não há espaço para as explicações, apenas informação, cujas trocas estão cada vez mais aceleradas. Mesmo os stories das plataformas são meras sequência de fatos, meras informações que não se conectam, e logo desaparecem. Isto gera uma sensação de impermanência e uma sutil compulsão por novas postagens. Submetida ao regime neoliberal, as narrativas focam no desempenho de cada um, empreendedor de si mesmo, competindo entre si com postagens de autorrealização e autorrepresentação que não formam comunidades.
Nas plataformas, as emoções são provocadas pelos storytelling, narrativas individuais em forma de produtos. Não contam uma história, não dão uma explicação, são cada vez mais despolitizadas. Servem para aumentar o poder e o controle por parte das plataformas. Uma dominação inteligente sobre as pessoas que se esconde sob a aparência de liberdade e comunicação. Quanto mais dados forem coletados melhor elas podem ser monitoradas, controladas e exploradas economicamente.
Como as emoções atuam numa região do cérebro em um nível anterior ao consciente, o capitalismo se apodera da vida em um nível pré-reflexivo. Assim tem o poder de influenciar nosso comportamento, contornando o controle do consciente. Esta realidade abre espaço para que a psicopolítica esteja em condições de se apoderar do nosso comportamento no nível pré-consciente e que ele chama de inconsciente digital.
O nível rudimentar do conhecimento produzido pelo Big Data, não explica nada. Apenas revela correlações entres as informações. Isso abre as portas para as teorias da conspiração que buscam fornecer explicações simples para problemas complexos.
Para o filosofo, essa nova realidade compromete a esfera publica da política, tendo em vista que a ação política pressupõe uma narrativa, sem a qual se degenera em ações e reações, abdicando da coerência narrativa.
Ao criticar o uso dos Storyselling pelos políticos na luta pela atenção narrativa das pessoas, ele considera que a opção de apelar para as emoções e não ao entendimento é tudo menos visão politica. As narrativas políticas oferecem a perspectiva de uma nova ordem das coisa, pintam mundos possíveis. Hoje falta exatamente este tipo narrativa que DÁ ESPERANÇA. E conclui: A narração tem o poder de um novo começo. Os storytelling conhecem só um modo de vida, a consumista.
Focado nas redes sociais, o trabalho de Han mostra um fio condutor com os sistemas de comunicação anteriores, em relação às pessoas: controlar, vender, manipular. Os fatores que diferenciam são: a infraestrutura, através dos smartfones é possível promover uma comunicação individualizada; a interatividade, permitindo que todos possam postar e consumir informações “livremente” e os objetivos, coletar informações para tornar eficiente os propósitos das plataformas de controlar e manipular as pessoas. A manipulação é feita pelo algorítimo, controlando a difusão de conteúdos segundos os critérios dos interesses econômicos e políticos dos seus proprietários.
Para Cédric Duran, economista francês, a hipótese que ele defende é que estamos diante do surgimento do Technofeudalismo. Esta hipótese é também defendida por Yanis Varoufakis, que entende que o technofeudalismo está matando o capitalismo.
Em síntese, estamos em um processo disruptivo nas comunicações com significativos impactos na vida das pessoas, na política e na economia. O smartfone é atualmente um dispositivo de controle que faz inveja ao big brother do romance 1984 de George Orwell. Nele as pessoas tinham suas imagens monitoradas mas não se sabia no que estavam pensando ou falando. O smartfone informa para as plataformas a psique dos indivíduos.
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