terça-feira, 29 de abril de 2025

As Elites Brasileiras – alguns recortes da história e algumas reflexões - 3

 

Ao chegar à Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso trouxe com ele a agenda neoliberal. Para o professor e economista João Manoel Cardoso de Mello, o governo de Fernando Henrique foi um desastre com método. Em uma entrevista dada à Revista Focus, ele esclarece aspectos da política brasileira.

Questionado do porque da ditadura de Vargas, ele responde: você acha que derruba uma dominação cafeeira que estava fundada em comissários, bancos, a alta classe média e os banqueiros internacionais, como? Assoprando, batendo nas costas, com democracia no Brasil?

Em seguida traça o perfil da elite brasileira e o que foi o governo FHC.

Ela [a elite] só pensa em seus interesses econômicos, não tem nenhum compromisso com a Nação”. ... “vem o Fernando Henrique e destrói o país, simplesmente. Ele cumpre o Consenso de Washington. A coisa dele era destruir a era Vargas, isto é, destruir os mecanismos que permitiram a industrialização. Ele destruiu tudo. Destruiu a indústria. No final do governo dele, a indústria praticamente não valia mais nada porque era uma “casca”. E compara com a decisão de Den Xiaoping, na China. “No começo dos anos 1990 houve uma discussão na China – havia uma corrente neoliberal lá – e o Deng Xiaoping falou: “Não senhor. Nós vamos fazer uma reestruturação industrial”. Tocou para fora todos os neoliberais. Pronto. Olha a diferença. E conclui: Aqui vem esse cínico desse Fernando Henrique. E ele agora diz o seguinte: “Eu abri a economia e o Brasil não aproveitou”. O presidente era ele!!! Olha se é possível isso.”

Ainda sobre a elite, João Manoel, rememora: “o dr. Ulysses me ensinou: “Você vai se meter aqui no MDB, aprenda uma coisa, tem a nossa turma e a turma deles”. O Lula não é da turma deles. O Lula pode encher eles de dinheiro e vão continuar dizendo que ele tem nove dedos, que ele é analfabeto e que ele é perigoso. Sem dúvida."

Comentando o trabalho de Paulo Guedes ele diz:A economia brasileira foi deixada na mão dos banqueiros. Veja a Globonews, durante muito tempo eles só falaram mal do Bolsonaro. Do Paulo Guedes, nada. Era o cara do mercado financeiro.”  

Na conclusão, ao analisar o governo Temer junto com o Bolsonaro, ele foi sintético: “Isso é o ápice da podridão.”

A narrativa do professor João Manoel, mostrando seu conhecimento da história do Brasil e os fatos históricos que ele testemunhou, ajudam a perceber os aspectos culturais dominante da elite brasileira.

Alguns outros episódios publicados na imprensa, vão ajudando perceber aspectos dessa cultura presentes no primeiro quarto do século XXI:

Em uma conversa ocorrida em 2002, da qual participaram os candidatos a Presidência, Lula, à Vice, José Alencar e o Banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú, conforme registrou o Jornalista Ricardo Kotscho, a cada proposta apresentada por Lula e José Alencar, o banqueiro retrucava com um “o império não vai deixar vocês fazerem isso”. O vice teria então reagido, questionando: que império é este Dr Setúbal? A gente pega em armas.

Em 2010, o Cônsul dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, Dennis Hearne, preocupado com a lei da Partilha, que colocava a Petrobras como operadora principal de qualquer consórcio que concorresse aos lotes do pré-sal, expressou as preocupações das petroleiras norte-americanas com esse aspecto da lei, em uma reunião com políticos, empresários e associações empresarias brasileiros, buscando apoio ao pleito da Embaixada para que a lei fosse alterada em sua tramitação no Senado. Pelo registro que se tem, o único a se manifestar favorável, prometendo mudar esta realidade foi o então governador de São Paulo José Serra (PSDB).

Matéria publicada na BBC em 2012 denunciou que os super-ricos brasileiros detêm o equivalente a um terço do Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas no país em um ano, em contas em paraísos fiscais, livres de tributação. Trata-se da quarta maior quantia do mundo depositada nesta modalidade de conta bancária. Notícias da BBC.

Após o golpe contra Dilma, nos governos de Temer e Bolsonaro , foram aprovadas leis que retiraram da Petrobras a condição de principal operadora dos consórcios na exploração do pré-sal – projeto do então senador José Serra; estabeleceram teto para o gasto público, com impactos no investimento público, assegurou isenções fiscal estimadas em R$ 1 trilhão para as empresas na exploração do pré-sal e mudanças na legislação trabalhista, em prejuízo dos trabalhadores. Além de terem leiloado todo o óleo do pré-sal, com as operadoras norte-americanas abocanhando expressiva fatia.

Após o golpe, ocorreu aumento nas áreas de garimpo em terras indígenas: 787% de toda a área ocupada por garimpos em territórios indígenas surgiu entre 2016 e 2022 e o então ministro do meio ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, virou réu acusado de envolvimento com um esquema de contrabando de madeira extraída ilegalmente da amazônia.

Quando o atual governo lançou o Plano da Nova Indústria Brasileira, não faltaram artigos e editoriais da mídia corporativa criticando o projeto do governo de alavancar a indústria nacional.

Esta é uma pequena amostra de como agem os governos da Elite. São pistas interessantes que permite perceber a força da cultura dominante, forjada nestes mais de cinco séculos da ocupação europeia, cujos símbolos são reforçados cotidianamente, seja nas ações dos governos das elites, seja nos noticiários da mídia corporativa. As trocas ocorridas a partir do convívio com outras culturas, as transformações na educação ou ainda mudanças no plano normativo, não tem se mostrado suficientes para alterar essa realidade. 

Em entrevista a Carta Capital em 2012, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos disse: as políticas são social-democratas, o Estado não. Este diagnóstico do Estado Brasileiro pode ser visto como a forte presença da cultura dominante nas instituições do Estado.

O poder irradiador desta cultura me parece se apoiar em uma aliança entre os setores mais antigos da economia: o setor agrícola e o setor financeiro. Para dar estabilidade à esta aliança, a terceira perna do tripé, a mídia corporativa. Possivelmente ai está uma aliança que nunca enxergou a Nação Brasileira. Não por acaso, o embate citado entre José Alencar e Olavo Setúbal refletem exatamente o conflito entre a indústria e a banca.

Com os acontecimentos que precipitaram o fim do governo Dilma e a ascensão da dupla Temer/Bolsonaro, o professor José Luís Fiori, escreveu em um artigo publicado em 2019, o seguinte texto:

Mas em todo momento as portas sempre estiveram abertas, e sempre foi possível acovardar-se e recuar, apesar de que o preço do recuo fosse cada vez maior. E foi exatamente isto que aconteceu: uma parte da elite civil e militar do país, e da própria sociedade brasileira, decidiu recuar e pagar o preço de sua decisão. Optaram pelo caminho do Golpe de Estado, e depois redobraram sua aposta, numa coalizão formada às pressas que culminou com a instalação no Brasil de um governo ‘paramilitar’ e de extrema-direita, que nesse momento está se propondo mudar radicalmente o rumo da política externa do país, com o abandono de algumas posições tradicionais do Itamaraty e com a denúncia raivosa da política externa seguida pelo Brasil entre 2003 e 2014.

Onde estamos e para onde vamos? Uma “potência acorrentada”

Um esclarecimento que, do meu ponto de vista,  julgo interessante fazer, considerando todo este percurso que teve início com a primeira postagem em 28/01/2025. O centro estratégico do golpe pode-se afirmar que estava no setor financeiro, o agro e a mídia corporativa. Coube a esta última um papel fundamental: manipular a parte da sociedade para dar legitimidade ao golpe, como ocorreu em 1964 com a mobilização Terra, Família e Propriedade. De fora do país veio toda a conspiração que resultou na Lava a Jato. As correntes de que fala o professor José Luís Fiori podem ser creditadas à cultura dominante da elite brasileira.

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