sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Multidões - O que as coloca em movimento? Parte II - Quando chegaram às potências nucleares

 Hercílio Maciel

O fim da União Soviética 

No final dos anos 80 início dos 90, um fato alterou de forma significativa a geopolítica mundial: o fim da União Soviética. Um processo de desintegração que ocorreu de forma súbita, com grandes repercussões na Europa e que quase levou à ruína a própria Rússia. 

A União Soviética, constituída a partir da revolução Bolchevique de 1917, era uma união de repúblicas comunista, com um sistema de governo de partido único, o Partido Comunista. De acordo com a análise do economista canadense Kenneth Galbrait, publicada numa entrevista na revista Veja, em junho de 1990, o comunismo foi razoavelmente eficiente, em particular nos seus estágios iniciais, para desenvolver a indústria de base - aço, química e petroquímica, usinas elétricas, transporte e moradias de baixo custo.  

A União Soviética - URSS -, num período de 60 anos, deixou de ser um país agrário para se constituir na segunda potência industrial do mundo, tendo, neste período, sido fundamental para a derrota da Alemanha Nazista na segunda guerra mundial

 Ainda segundo Galbraith o comunismo foi muito mais bem sucedido do que se não tivesse havido a revolução e os czares e a incompetência que os cercava tivesse sobrevivido. Ele enfatiza que foi muito eficiente para produzir professores, estudantes, escritores, poetas, artistas, cientistas, engenheiros, empresários, os quais, numa economia moderna, não podem ser mantidos quietos, querem participar do governo. O regime não era muito eficiente na produção de bens de consumo, baixa eficiência na agricultura e mesmo na produção de bens de capital. 

As mudanças lideradas por Mikhail Gorbachev desencadeou um movimento popular que culminou com a desintegração da URSS, quase destruindo a Rússia. 

 

As revoltas chegaram à China.

Em 1978, o país iniciou um processo de reformas, lideradas por Den Xiaoping, que envolvia não apenas uma revolução econômica, mas também uma revolução política. Implicou uma reformulação completa do Estado, tendo como elemento essencial dessa transformação a descentralização, a concessão de direitos de propriedade de fato e poder fiscal. O orçamento do governo central, como parcela do PIB, encolheu consideravelmente e o crescimento econômico passaram dos respeitáveis 4% a 5% do período Mao Tse Tung para uma taxa de crescimento anual de 9,5% entre 1978 e 1992.

Mais de uma década depois de iniciada essas reformas, em 1989, o governo chinês teve de enfrentar uma grande manifestação estudantil na Praça da Paz Celestial. Brutalmente reprimida pelo exército e com a liderança do partido comunista chinês dividida, este traumático evento se manifestou em várias cidades mas, por uma característica própria da China, tiveram surpreendente pouco impacto, além de um certo ponto , no país como um todo, como anotou Martin Jaques, no livro “When the China rules the World” (Quando a China governa o mundo).

Segundo o autor, uma das características das lideranças chinesas é a flexibilidade, vista como uma virtude positiva e a capacidade de responder a uma situação particular como um sinal de sabedoria, diferindo do modelo ocidental. O fato concreto é que o governo chinês “ouviu” o recado das ruas e mesmo tendo reprimido as manifestaçõe, acelerou as mudanças, fazendo expandir o novo modelo de desenvolvimento originado na cidade de Shenzhen, para Xangai e o Delta do Yangzi.

Nesses acontecimentos do final dos anos 80 para início dos anos 90 do século passado não existia ainda o telefone celular com a difusão e usos que somente ocorreria 10 ou 20 anos depois.

Eleição de Trump e o Pesadelo de Maidson

Estamos em 2016, eleições presidenciais nos Estados Unidos. Apurado o resultado, Donald Trump, um candidato de fora do sistema político norte-americano, um “outsider”, como eles chamam, com um discursos agressivo contra minorias, imigrantes e mulheres, é eleito, surpreendendo à todos, sagrando-se vitorioso.

As condições da sua eleição e seu estilo de governo e tal foram objeto de várias análises. Uma delas ofereceu uma abordagem interessante: A América está vivendo o pesadelo de James Maidson” de Jeffrey Rosen.

No artigo, Rosen relembra um trecho da história dos Estados Unidos quando James Maidson, um dos pais fundadores da democracia norte-americana, estava determinado, ao redigir a constituição,  “evitar o destino daquelas confederações antigas e modernas”, que ele acreditava terem sucumbido ao governo de demagogos e turbas.” A democracia direta, como a ateniense, escreveu ele, seria dominada por “paixões populistas que superariam a razão fria e deliberativa valorizada acima de tudo pelos pensadores do iluminismo, mesmo que o quórum mínimo de 6.000 pessoas fosse todo de Sócrates. Ele se referia “à multidões impetuosas” como um grupo “unido e movido por algum impulso comum de paixão ou de interesse adverso aos direitos de outros cidadãos ou ao interesse da comunidade.” Para ele essas facções poderiam dissolver-se se fosse dado ao público tempo e espaço para considerar os interesses de longo prazo, ao invés de ganhos imediatos. O resultado do trabalho dele com os outro autores – Alexander Hamilton e Jonh Jay – foi a criação de uma república representativa onde delegados esclarecidos do povo seriam eleitos para servir ao público. Madison previu que a vasta geografia e a grande população dos Estados Unidos impediriam a mobilização de multidões apaixonadas. Sua energia perigosa se esgotaria antes que pudesse inflamar outras pessoas.

Rosen traz as preocupações de Maidson do final do século XVIII para os tempos atuais quando , “Twitter, Facebook e outras plataformas aceleraram o discurso público a uma velocidade vertiginosa, criando versões virtuais da multidão. Em vez de encorajar a deliberação, os meios de comunicação social minam-na criando bolhas e câmaras de eco nas quais os cidadãos veem apenas as opiniões que já abraçam.” E conclui, estamos vivendo um pesadelo.

Os relatos publicados na primeira parte dessa série  somados aos apresentados nesta postagem são exemplos de que, independente do regime de governo, da extensão territorial ou da cultura, qualquer país está sujeito ao risco de  “multidões impetuosas” como um grupo “unido e movido por algum impulso comum de paixão ou de interesse adverso aos direitos de outros cidadãos ou ao interesse da comunidade” se mobilizem, podendo levar o caos ao país. 

E quando esse país é uma potência nuclear? E se na desintegração da União Soviética o arsenal nuclear tivesse ficado sob a guarda dos países onde se encontravam instalados, com os governos desintegrados? 

Na próxima postagem, estudos dão pistas das causas dessas manifestações com tanta intensidade. 

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