segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Multidões – O que as coloca em movimento? Parte I - Análise da história recente.

Na história do Brasil grandes multidões foram mobilizadas, a partir de convocações para eventos políticos. A história registra, por exemplo, o grande comício da Central do Brasil na cidade do Rio de Janeiro – 150 mil pessoas - ou a Marcha da Família com Deus e Pela Liberdade na cidade de São Paulo – 500 mil pessoas, ambas ocorridos no mês de março de 1964, poucos dias antes do golpe de 31 de março. No final da ditadura, mais de 5 milhões de pessoas participaram dos diversos comícios pelas “Diretas Já, em diversas cidades do país, atendendo a convocação dos seus organizadores, apesar da oposição da mídia. O primeiro comício ocorrido em São Paulo em Janeiro de 1984  foi noticiado pela Globo como comemoração do aniversário de São Paulo. Com a volta das eleições para presidente em 1989, milhões de pessoas foram às ruas, em várias cidades do país, para participar de comícios eleitorais ou passeatas, convocadas pelas candidaturas. E, mais recentemente, não apenas os setores progressista, mas também a extrema-direita se mostrou capaz de levar às ruas verdadeiras multidões, inclusive em atos fora das campanhas eleitorais.

No mundo, há mais de uma década, se começou a perceber multidões indo ás ruas, sem convocação de um grupo político ou liderança, sem uma bandeira de luta específica, se manifestando de forma aparentemente espontânea, contra situações críticas em termos de qualidade de vida.

Um exemplo interessante desse tipo de mobilização foi a chamada Primavera Árabe, nos países do norte da África e da Ásia ocidental e que se mostrou, quando multidões foram ás ruas, energia suficiente para derrubar governos.  Começou pela Tunísia e se estendeu para a Líbia, Egito, Iêmen, Síria e Bahrein. Também na Ucrânia, em 2014, ocorreram manifestações similares, que culminaram com a derrubada do governo próximo a Moscou, um movimento que teve sua origem na chamada Revolução Laranja ocorrida em 2004/2005 e que está relacionado a atual guerra entre a Ucrânia e a Rússia. 

No Brasil, um exemplo desse tipo de mobilização aparentemente espontânea ocorreu em junho de 2013, há exatos 12 anos, quando, simultaneamente em várias cidades do país, a população foi às ruas para protestar, sem que houvesse um grupo político ou liderança convocando ou mesmo uma bandeira específica.

O objetivo deste texto é ajudar a entender os fatores que podem ter sido responsáveis pelo êxito das mobilizações "espontâneas" e que podem ajudar a compreender os êxitos e fracassos das mobilizações que se sucederam. 

A principal característica desse tipo de mobilização, segundo os exemplos citados, é que elas aconteceram a partir de determinados fatos da realidade, os quais, trabalhados pelas comunicações, especialmente a partir das redes sociais e sua interatividade, se mostraram capazes de estimular, em nível nacional, reações em cadeia.

Uma passada rápida nos países onde ocorreu a Primavera Árabe, mostrou um quadro mais ou menos comum. Segundo as notícias disponíveis, havia governos longevos e com denúncias de envolvimento em casos de corrupção e uma condição de vida difícil para a população.

Um laboratório destes acontecimentos parece estar relacionado ao que ocorreu na antiga Iugoslávia, no final dos anos 90. A unidade que constituía a Iugoslávia era obra da habilidade política do Marechal Tito, que presidiu o país desde o fim da II Guerra até os anos 80. Ele conseguiu reunir sob uma mesma bandeira diferentes povos de diferentes culturas. Sua morte foi um ponto de inflexão na história do país. Sucedeu-lhe Slobodan Milossevic que governou por 13 anos. Segundo informações obtidas na Internet, a crise econômica decorrente, principalmente, das sanções impostas pelas potencias ocidentais, agravou as condições de vida da população. Neste ambiente de tensões internas, ganha força os distintos movimentos separatistas, decerto sob a influência do ocidente. Matérias em algumas revistas noticiaram que um grupo de jovens, a partir do celular - na época ainda não havia redes sociais e internet no celular - iniciou a mobilização da sociedade que culminou com a deposição do Presidente e a consequente fragmentação da Iugoslávia em pequenas repúblicas localizadas na região dos Bálcãs, Europa.

No norte da Africa e Ásia ocidental, a primeira manifestação da primavera Árabe ocorreu na Tunísia, final de 2010, quando um jovem Mohamed Bouazizi, que vendia legumes e frutas para sustentar a família, foi achacado por três fiscais que lhe pediram propina. Como se recusou a pagar, foi espancado e teve seus produtos apreendidos. Não sendo atendido pelas autoridades quando tentou reavê-los, resolveu tocar fogo em seu próprio corpo, vindo a falecer em seguida. Este episódio desencadeou uma onde de protestos. Multidões enfurecidas foram às ruas contra a corrupção e falta de oportunidade. Da Tunísia os protesto se espalharam por todo o norte da África e Ásia ocidental.

No Brasil, as manifestações de junho de 2013, que se espalharam pelas capitais e grandes cidades do país contaram com várias explicações que, a meu juízo, não conseguiram revelar o que realmente motivou aqueles acontecimentos. A partir de uma leitura da questão urbana, o mais provável para a eclosão daquelas mobilizações pode está relacionada com o sério problema da mobilidade enfrentado pela população à época. As políticas públicas trouxeram impactos positivos na distribuição de renda, no baixo nível de desemprego, no acesso à Universidade, entre outros. Isto provocou o aumento na circulação nas cidades. A insuficiência dos transportes públicos e o significativo aumento da frota de veículos destinados ao transporte individual - segundo o IBGE, de 2007 a 2013 ocorreu um forte crescimento de: Camioneta: 56,81%; Moto: 95,11%; Motocicleta: 107,65% e Veículos: 68,33% - sobrecarregou a infraestrutura viária, comprometendo a mobilidade, aumentando o tempo de deslocamento diário nas horas de pico, com impactos negativos na qualidade de vida das pessoas. Este problema veio a se somar aos demais problemas urbanos enfrentados, tais como: violência, precariedade dos serviços, entre outros, com a mobilidade se mostrando comum à maioria das cidades, cujo segmento social mais impactado foi a classe média, tradicional usuária do transporte individual.

Atento ao problema, o governo federal em 2010 lançou o PAC da mobilidade urbana com recursos destinados à infraestrutura e ao financiamento dos veículos para o transporte público. A execução do programa ficou sob a responsabilidade dos governos estaduais e prefeituras. Em razão do tempo de execução das obras, o problema foi se agravando, aumentando a insatisfação. A mídia, que desde 2010 havia assumido publicamente o papel de oposição ao governo, investia de forma permanente na crítica, muitas vezes baseadas no censo comum, mantendo viva na mente das pessoas a agenda de descontentamento enquanto noticiava de forma episódica o que vinha sendo executado. Um exemplo interessante pode ser visto nas reportagens de capa da revista Época (SP) e da Folha de São Paulo, sobre as ações voltadas ao problema da mobilidade urbana em São Paulo já em 2013. O Prefeito Fernando Haddad(PT), em seu primeiro ano de gestão, decidiu implantar os corredores exclusivos de transporte público, medida recomendada por especialistas no assunto e funcionando em várias cidades do país  e do mundo.  

 Estas mudanças buscam estimular as pessoas ao uso do transporte coletivo, reduzindo a quantidade de transporte individual na cidade. Isto significa mudança de hábito que, normalmente, gera resistências antes das coisas se ajustarem. Dentro da postura que havia assumido desde 2010, a mídia estimulava a oposição da população às medidas da Prefeitura, reforçando a cultura do transporte individual e, ainda responsabilizando diretamente o Prefeito.

Capa da Revista Época sobre os corredores de transporte

Neste período houve aumento de R$ 0,20 no valor das passagens de ônibus na cidade e um grupo que se denominava Movimento Passe Livre convoca uma manifestação em São Paulo contra este aumento. A manifestação, estimada em 5 mil pessoas, foi fortemente reprimida pela polícia militar. A matéria é noticiada nacionalmente via mídia corporativa e as redes sociais cuidaram de estimular a indignação com a violência. No ambiente que havia se formado de múltiplas insatisfações, especialmente com a mobilidade urbana, o episódio serviu como estopim para levar às ruas multidões de descontentes, em várias cidades, surpreendendo à todos inclusive aos organizadores do MPL. Não havia uma pauta específica. Muita gente era contra alguma coisa, queriam protestar. Faziam alusão aos R$ 0,20 do valor do aumento das passagens como mote, mas não se focava na questão da mobilidade. Isto sugere que havia, especialmente entre os jovens, uma grande parcela de classe média, um descontentamento que não conseguiam expressar, mas  sentiam. Nos dias seguintes o movimento continuou mas já apropriado por outros grupos, com outras bandeiras sendo introduzidas.

A partir desta análise é possível observar uma ligação semiótica entre o desconforto vivido em relação à mobilidade urbana e a repressão à luta contra o aumento do valor das passagens do transporte urbano na cidade de São Paulo.

A energia acumulada extravasada nestas manifestações não foi suficiente para derrubar o governo, como ocorreu nas manifestações na África, Ásia e Europa, mas abalou os índices de aprovação com maior impacto na aprovação da Presidenta Dilma. E este impacto tem relação com a guerra semiótica que se travou contra o governo federal, poupando os governos estaduais e municipais que passaram incólumes até da cobrança do andamento das obras do PAC da mobilidade. Os desdobramentos destes eventos se refletiria nas eleições do ano seguinte, cuja vitória de Dilma aconteceu por uma estreita margem de 3 pontos percentuais abrindo espaço para contestação por parte da oposição de direita e todos os desdobramentos que se seguiram até o impeachment.

Este não foi o único episódio de manifestação espontânea ocorrido na história recente do Brasil. Em 16 de agosto de 1992 milhares de pessoas, em todo o país, foram às ruas vestidas de preto ou portando adereços desta cor, pedindo o “Fora Collor”. A população vivia um momento muito difícil. As primeiras medidas tomadas no início do governo incluiu o confisco da poupança de milhões de brasileiros, com o objetivo de conter a inflação. Também foi confiscado o reajuste salarial em função da inflação do período anterior, como definia a legislação e que somava 84,32%. A inflação não conseguiu ser controlada e as pessoas ficaram mais pobres. Associado a isto denúncias de corrupção que desaguaram numa CPI. A postura arrogante do Presidente, cuja vitória eleitoral contou com o apoio da Rede Globo de Televisão, levou-o a cometer a insanidade de fazer uma convocação à população para ir às ruas no domingo 16, de verde e amarelo para apoiá-lo. A convocação funcionou como um estopim. A população percebeu naquela atitude uma provocação, e agiu de forma oposta, indo às ruas de preto para expressar sua indignação. Este episódio contribuiu para acelerar o impeachment do então Presidente.

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