Hercílio Maciel
Pano rápido e estamos no primeiro quarto do século XXI, assistindo
em tempo real o julgamento de generais de 4 estrelas e Almirante,
entre outros, pela tentativa de golpe de Estado no 8 de janeiro de
2023 e, ainda, o plano para assassinar o Presidente, o Vice e
Ministros do STF.
Este talvez pode ser o epílogo de um modelo de interferência das forças armadas na política brasileira, que remonta ao período do II reinado, tendo se iniciando após a guerra do Paraguai.
As guerras híbridas
O uso das comunicações de massa como meio de disputa de poder, como já descrito nas primeiras postagens dessa série - Comunicação: a cegueira situacional dos progressistas I - Um visão geral do problema; Comunicação: Cegueira situacional dos Progressistas II - A genealogia das comunicações, o terceiro pilar do poder; Comunicação: a cegueira situacional dos progressistas III - Redes sociais, a fase mais disruptiva das comunicações; Comunicação: a cegueira situacional dos progressistas – Epílogo -, remonta, pelo menos ao início do século XX, quando foi desenvolvida nos Estados Unidos a propaganda política. Há um marco ainda anterior do início do que atualmente é chamado e marketing político, ou propaganda política. Como citado por José Nivaldo Júnior, “Isto que hoje denominamos marketing político é esta complexa e frequentemente mal definida teia de atividades e atitudes que viabiliza o acesso ao poder. Seu exercício e sua manutenção existem desde que se estabeleceram as primeiras composições sociais nas quais alguns mandam e outros obedecem."
O que se observa no período mais recente da história da humanidade é a transformação do que se conhecia como marketing político. As atuais capacidades de comunicação, a partir das novas e sofisticadas tecnologias desenvolvidas pelos capital, sendo a principal delas o sistema de comunicação pessoal – o celular; as privatizações das empresas de telecomunicações, deslocando o centro de controle das redes para fora dos países e o desenvolvimento das ciências de comportamento e neurológicas, passaram a constituir uma nova teia, cujo centro estratégico está nos Estados Unidos. O que era marketing voltado para afirmação do poder, transformou-se em guerra, guerra híbrida, porque esvazia o diálogo, exacerba o conflito mas não envolve os ativos convencionais de uma guerra – exércitos profissionais e armamentos - mas têm objetivos claros de destruição da integridade territorial dos países alvo, a partir da manipulação da mente das pessoas.
O livro Weapons of Math Destruction – Armas de Destruição Matemática – de Cathy O’Neil (2017), segundo a New York Book Review “oferece uma visão audaciosa de como os algoritmos estão cada vez mais relacionando as pessoas... Seu conhecimento sobre o poder e o risco dos modelos matemáticos, aliado a um talento para analogias, a tornam uma das observadoras mais valiosas da contínua militarização do big data... [Ela] faz um trabalho magistral ao explicar a difusão e os riscos dos algoritmos que regulam nossas vidas.”
Essa militarização dos algorítimos e os riscos analisados por O’Neil, corrobora com o ensaio do General Valery Gerasimov do Estado Maior das forças armadas russas, datado de março de 2013. Para ele, os desafios contemporâneos das Nações para assegurar sua integridade territorial, envolve questões que vão além da ciência militar.
Abaixo algumas considerações feitas pelo militar:
No século XXI, temos observado uma tendência a confundir os limites entre os estados de guerra e de paz. As guerras não são mais declaradas e, uma vez iniciadas, prosseguem de acordo com um modelo desconhecido.
A experiência de conflitos militares — incluindo aqueles relacionados às chamadas revoluções coloridas no Norte da África e no Oriente Médio — confirma que um Estado perfeitamente próspero pode, em questão de meses e até dias, transformar-se em uma arena de conflito armado feroz, tornar-se vítima de intervenção estrangeira e afundar em uma teia de caos, catástrofe humanitária e guerra civil. Em termos da escala de baixas e destruição, das consequências sociais e econômicas catastróficas, esses novos tipos de conflitos são comparáveis às consequências de qualquer guerra real.
O papel dos meios não militares para atingir objetivos políticos e estratégicos cresceu e, em muitos casos, eles superaram o poder da força das armas em sua eficácia;
O foco dos métodos aplicados de conflito mudou na direção do amplo uso de medidas políticas, econômicas, informacionais, humanitárias e outras medidas não militares — aplicadas em coordenação com o potencial de protesto da população.
Tudo isso é complementado por meios militares de caráter velado, incluindo a execução de ações de conflito informacional e as ações de forças de operações especiais. O uso aberto de forças — muitas vezes sob o disfarce de manutenção da paz e regulação de crises — é utilizado apenas em um determinado estágio, principalmente para alcançar o sucesso final no conflito.
A análise de Gerasimov nos leva a considerar que a defesa da integridade territorial de um país cada vez mais depende do grau de coesão interna.
O Brasil, em sua história, enfrentou e enfrenta sucessivas crises. Elas são consequência da ausência de uma classe hegemônica capaz de reivindicar uma coesão em torno de um projeto de nação, legitimada pela defesa dos direitos gerais da sociedade. Essa fragilidade, num ambiente onde as comunicações oferecem a cada pessoa uma conexão exclusiva à rede mundial de computadores, fortalecendo ainda mais o individualismo, amplia o risco de desagregação social. Segundo alguns analistas, a coesão para defesa da integridade territorial passa a depender cada vez mais do envolvimento conjunto de civis e militares. Para que essa coesão seja conquistada é fundamental um projeto de poder capaz de integrar os interesses particulares dos indivíduos com os interesses das suas comunidades e os interesses maiores da Nação. O desafio é repensar uma nova relação entre os governos civis, a sociedade e as forças armadas, tendo como um dos pilares a comunicação, em nome do futuro do país.
Bibliografia utilizada em toda a série
História do Brasil, - Boris Fausto - 1999;
1964 - A conquista do Estado - René Dreifuss - 1981
América Latina - La crisis hegemónica y el golpe militar, - José Num – 1966;
A desgraça do militarismo, de Gonçalo Júnior – 1998 – Artigo Gazeta Mercantil
De Dutra a Lula – A condução e os determinantes da política externa brasileira, - Octávio Amorim Neto, 2012.
O ponto cego dos militares brasileiros – José Luís Fiori – 2019
The Value of Science Is in the Foresight – General of the Army Valery Gerasimov - 2013
Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda – 1936
Maquiavel o Poder - História e Marketing - José Nivaldo Junior
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