terça-feira, 11 de março de 2025

A influência das comunicações na política: A estratégia do voto ninguém I

Hercílio Maciel 

10/03/2025

Quando da análise da influência das comunicações na política, em relação às eleições presidenciais, foi dado destaque para alguns fatos interessantes observados nos pleitos de 1994 e 1998, quando o então candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, sagrou-se vitorioso já no primeiro turno. O voto ninguém (resultante do cálculo: total de eleitores aptos menos total de votos  nominais) apresentou os maiores percentuais da série histórica. Em 1998, esse valor foi superior aos votos dados ao candidato vitorioso. Uma hipótese provável é que a interdição do debate pela mídia, através do chamado consenso de bacharéis, pode ter sido o principal elemento desmobilizador do eleitorado.

Na análise da campanha de Trump nas eleições dos Estados Unidos em 2016, foi observado que nas mensagens individuais enviadas aos eleitores, ajustadas aos seus perfis, uma das estratégias adotadas em relação a Hilary Clinton, então adversária, tinha por objetivo manter o seu eleitorado longe das urnas.

Em 2016 a Cambridge Analytica que deu assessoria à campanha de Trump, havia feito os primeiros contatos com uma empresa nacional de marketing eleitoral, ainda em maio daquele ano e há vários dados que convergem para o fato de que em 2018 a campanha de Bolsonaro recebeu suporte dessa empresa através do seu parceiro nacional. A estratégia foi ajustada para a realidade brasileira, onde as comunicações via WhatsApp são bem mais aceitas. Isto significa que os candidatos formaram um poderoso banco de dados de contatos via whatsapp e que, decerto, tem sido a base das campanha seguintes.

As eleições de 2018 foram fortemente influenciadas por vários fatores externos: impeachment de Dilma, prisão de Lula, cerceamento da fala do Lula. Enfim, todos os sortilégios que as instituições brasileiras puderam praticar em 2018 não se furtaram de fazê-lo, com destaque para a mídia corporativa que abandonou toda aparência de neutralidade. O lema era simples: Todos contra o PT. Evidentemente uma análise do voto ninguém nestas eleições não traria qualquer informação minimamente confiável.

Optou-se então por analisar as eleições de 2022 e o comportamento do voto ninguém.

Na tabela abaixo foram computados os votos para Lula e Bolsonaro, no primeiro e no segundo turnos, consolidados por Região. Foi calculada a variação dos votos de cada candidato, em cada região, entre o primeiro e o segundo turno e na última coluna a variação do voto ninguém.


 Alguns valores chamaram a atenção:

I - O voto ninguém cresceu apenas nas regiões onde Lula foi o mais votado no primeiro turno;

II - Na Região Norte aconteceu algo surpreendente: O expressivo crescimento do voto ninguém coincide com um expressivo crescimento no voto em Bolsonaro e um crescimento insignificante do voto em Lula, resultando numa inversão do resultado entre o primeiro turno, quando Lula foi o mais votado para o segundo turno quando Bolsonaro foi o mais votado.

III - Na Região Nordeste, o principal reduto do eleitorado de Lula, embora o crescimento do voto ninguém tenha sido insignificante, no total, foi observado um vigoroso crescimento dos votos em Bolsonaro e um crescimento bem modesto dos votos em Lula.

No cômputo geral foi a expressiva votação na Região Nordeste que garantiu efetivamente a eleição de Lula e foi nesta região que ocorreram as denúncias de uso da Polícia Rodoviária Federal para barrar os eleitores de Lula, fato que está sendo objeto de investigação e posterior julgamento dos implicados. 

Na próxima postagem será aprofundada a análise da relação entre o crescimento do voto ninguém e a votação no primeiro turno para cada Região. Os dados vão surpreender.  

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